13/01/2018

0 Fantasia - Poema de Adolfo Casais Monteiro





Despedacei tanto sonho
ao correr atrás da vida,
que tendo-a por mim segura
e com ela os meus segredos
vi que deixava perdidas
as razões desse correr,
e que tendo enfim a chave
já perdera a fechadura.




Adolfo Casais Monteiro





0 Luar numa rua - Poema de Adolfo Casais Monteiro



A rua: sem vozes, lisa e brilhando
Sob a luz fria da Lua.
Nada quebra a maravilha
Duma paisagem assim,
Imperturbável,
Estranha...

Os candeeiros esguios
Acentuam a beleza
Já de si tão de outro mundo
Desta rua à luz da Lua
Onde lucilam miragens
A esta hora tamanha.

Há coisas que se pressentem,
Mistérios, enormidades,
Espreitando das esquinas,
Escondidos nos recantos,
Coisas em que pensar
Quando se anda sòzinho,
Sozinho de madrugada...

O luar quebra-se em linhas
Que desconjuntam as casas
De dia tão bem seguras,
E sobem de lá do fundo
Das gavetas do passado
A esta hora de espantos
Murmúrios quase gelados...

Velha luz das madrugadas
Nas ruas tão conhecidas!
Luz sincera, companheira
Do passear, horas mortas,
Levando de braço dado
A legião das imagens
De toda a vida vivida,
O calor bom companheiro
Da vida que foi, um dia...

Adolfo Casais Monteiro



0 O que levo comigo - Poema de Ademir António Bacca





essa coisa que chamam vida
é mala difícil de se carregar
pé na estrada,
nem sempre o que carrego comigo
é tudo aquilo que eu posso dar

tem dias que levo sonhos
tem dias que levo pesar

o que levo nos olhos
é o que eu ainda tenho para sonhar

tem dias que levo nuvens
tem dias que levo o mar

essa coisa que chamam vida
nem sempre é barco fácil de se levar...
velas ao vento,
o que carrego na mala
é o que eu tenho para dar

tem noites que levo o sol
tem dias que levo o luar

porque essa coisa que chamam vida
tem o movimento das águas do mar

tem dias que o poema cai na rede
tem dias que o ponteiro das horas não sai do lugar

por isso tem vezes que recolho as velas
e o que carrego nos olhos
é só o que tenho para dar

tem dias que levo meu sorriso mais belo
tem dias que levo a dor dos rios
que não alcançam o mar.

Ademir António Bacca



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