quinta-feira, julho 26, 2018

As Árvores






Árvores são poemas que a terra escreve para o céu. 
Nós as derrubamos e as transformamos em papel para registar todo o nosso vazio.




Khalil Gibran



quarta-feira, julho 25, 2018

Eis a casa




Eis a casa - poema de Cecília Meireles



Eis a casa
menos que ar
imponderável,
no entanto é branca de camélia
e tem perfume de cal
Com seus corredores
O alpendre
As janelas uma a uma
Vê-se o mar. As montanhas. O trem passando
O gasómetro
Vêm-se as árvores por cima com suas flores
A casa imponderável
Mas de cimento madeira tijolos ferro vidro
A pintura prateada das grades cheira a óleo a fruta a luz
A água a pingar cheira a musgo,
soa metálica, trémula
insetos pássaros líquidos
pequenas estrelas
clarins muito longe
Peitoris gastos de braços antigos
Sombras de borboletas
Eu sei quem comprou a terra
quem pensou nos desenhos
quem carregou as telhas
Passam legiões de formigas pelos patamares
Eu sei de quem era a casa
quem morou na casa
quem morreu
Eu sei quem não pôde viver na casa
É uma casa
com seus andares
suas escadas
seus corredores
varandas
aposentos
alvenaria
muros
imponderável.
Uma casa qualquer.
Cruz que se carrega.
Imponderavelmente, para sempre, às costas.


Cecília Meireles


segunda-feira, julho 23, 2018

Viagem




No perfume dos meus dedos,
há um gosto de sofrimento,
como o sangue dos segredos
no gume do pensamento.

Por onde é que vou?

Fechei as portas sozinha.
Custaram tanto a rodar!
Se chamasse, ninguém vinha.
Para que se há de chamar?

Que caminho estranho!

Eras coisa tão sem forma,
tão sem tempo, tão sem nada...
- arco-íris do meu dilúvio!-
que nem podias ser vista
nem quase mesmo pensada.

Ninguém mais caminha?

A noite bebeu-te as cores
para pintar as estrelas.
Desde então, que é dos meus olhos?
Voaram de mim para as nuvens,
com redes para prendê-las.

Quem te alcançará?

Dentro da noite mais densa,
navegarei sem rumores,
seguindo por onde fores
como um sonho que se pensa.

Por onde é que vou?
 

Cecília Meireles, in “Poesia Completa”



terça-feira, julho 17, 2018

Jardins - Refúgios para descansar e meditar



Nada como um belo jardim para encantar o nosso olhar e aliviar o nosso coração das preocupações que tantas vezes lá se instalam. Hoje proponho uma viagem virtual pelo encanto e beleza dos jardins.








Grandes ou pequenos, cada jardim tem os seus recantos muitos especiais. Pode ser os tons fortes das cores das flores, as diferentes tonalidades dos verdes da natureza, o cantar dos pássaros, a melodia de um riacho ou a arte e imaginação do jardineiro, mas tudo num jardim nos pode levar numa onda de paz, tranquilidade e harmonia.











Contemplar toda a maravilha que a natureza nos proporciona é um colírio para os olhos e um bálsamo para a alma. É um presente tão belo e tão especial que para mim tem um valor absolutamente incalculável.











Para além de olhar e tentar interiorizar toda a beleza de um jardim eu gosto de tocar ... gosto de sentir quer a suavidade das pétalas das flores, quer a casca rogosa das árvores. Ao tocar, sinto-me fazendo parte dessa cadeia maravilhosa de vida.









Num jardim estamos em sintonia com a natureza. Os seus cheiros, as suas cores, os seus sons, tudo se combina de forma harmoniosa numa explosão de vida que nos envolve, convida e inspira a fazermos uma viagem interior. Talvez que nessa meditação, seja possivel identificarmos mais claramente aquilo que nos inquieta e assim descobrirmos também, a melhor maneira de ultrapassar os nossos problemas e encontrarmos o caminho ideal a seguir.






Passear num jardim é sentir toda a poesia que emana da natureza.

Fotos: 1ms.net, www.hdwallpaperstop.com, www.fans-de-bretagne.com; www.1zoom.net e fotos Pessoais.

domingo, julho 15, 2018

Soneto



Poema de Fernanda de Castro


Canta. Busca na vida o que é perfeito.
Olha o sol e não queiras outro guia.
Sonha com a noite e absorve, aspira o dia,
Tal uma flor que te florisse ao peito.

Da terra maternal faze o teu leito.
Respira a terra e bebe o luar. Confia.
Faze de cada pena uma alegria
E um bem de cada mal insatisfeito.

Colhe todas as flores do jardim,
Todos os frutos do pomar e enfim
Colhe todos os sonhos do universo.

Procura eternizar cada momento,
Fecha os olhos a todo o sofrimento
E terás feito a carne do teu verso.



Fernanda de Castro

sábado, julho 14, 2018

Ás Vezes





Às vezes, em sonho triste
Nos meus desejos existe
Longinquamente um país
Onde ser feliz consiste
Apenas em ser feliz.

Vive-se como se nasce
Sem o querer nem saber,
Nessa ilusão de viver
O tempo morre renasce
Sem que o sintamos correr.

O sentir e o desejar
São banidos dessa terra.
O amor não é amor
Nesse país por onde erra
Meu longínquo divagar.

Nem se sonha nem se vive:
É uma infância sem fim.
Parece que se revive
Tão suave é viver assim
Nesse impossível jardim.


Fernando Pessoa


sexta-feira, julho 13, 2018

Angústia






Tortura do pensar! Triste lamento!
Quem nos dera calar a tua voz!
Quem nos dera cá dentro, muito a sós,
Estrangular a hidra num momento!

E não se quer pensar! ... e o pensamento
Sempre a morder-nos bem, dentro de nós ...
Querer apagar no céu – ó sonho atroz! –
O brilho duma estrela, com o vento! ...

E não se apaga, não ... nada se apaga!
Vem sempre rastejando como a vaga ...
Vem sempre perguntando: “O que te resta? ...”

Ah! não ser mais que o vago, o infinito!
Ser pedaço de gelo, ser granito,
Ser rugido de tigre na floresta!


Florbela Espanca

quarta-feira, julho 11, 2018

Saber Viver - Poema de Cora Coralina



Não sei... Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:

Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura... Enquanto durar


Cora Coralina


Desejos Vãos






Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar também chora de tristeza…
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras… essas… pisa-as toda a gente!…


Florbela Espanca

terça-feira, julho 10, 2018

Contemplo o que Não Vejo




Contemplo o que não vejo.
É tarde, é quase escuro.
E quanto em mim desejo
Está parado ante o muro.

Por cima o céu é grande;
Sinto árvores além;
Embora o vento abrande,
Há folhas em vaivém.

Tudo é do outro lado,
No que há e no que penso.
Nem há ramo agitado
Que o céu não seja imenso.

Confunde-se o que existe
Com o que durmo e sou.
Não sinto, não sou triste.
Mas triste é o que estou.


Fernando Pessoa


quarta-feira, julho 04, 2018

Não te Fies no tempo


Não te fies do tempo nem da eternidade
que as nuvens me puxam pelos vestidos,
que os ventos me arrastam contra o meu desejo.
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo!

Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
ó lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te escuto!

Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo...
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te digo...


Cecília Meireles, in 'Retrato Natural'
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