domingo, 27 de dezembro de 2020

Tu és a Esperança - Poema de Eugénio de Andrade




Tu és a esperança, a madrugada.
Nasceste nas tardes de setembro
quando a luz é perfeita e mais doirada,
e há uma fonte crescendo no silêncio
da boca mais sombria e mais fechada.

Para ti criei palavras sem sentido,
inventei brumas, lagos densos,
e deixei no ar braços suspensos
ao encontro da luz que anda contigo.

Tu és a esperança onde deponho
meus versos que não podem ser mais nada.
Esperança minha, onde meus olhos bebem
fundo, como quem bebe a madrugada.


Eugénio de Andrade,
In: 'As Mãos e os Frutos'



segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Sonho de Natal




Que este Sonho de Natal
No seu sentido integral
Traga uma esperança contida
de amor e fraternidade
e recíproca amizade
p'ra ter mais sentido a vida.

Que termine o sofrimento
Daqueles cujo tormento
É de dor e opressão
Aos tristes dê alegria
E volte a dar companhia
A quem vive em solidão.

Do que o Natal nos traz
Que traga sem falta a paz
De que o mundo bem carece
P'ra que não permita a guerra
Nem haja fome na terra
E um Novo Mundo comece.

Que o Menino da bondade
Permita a realidade
De todos sermos iguais
Em sentimentos unidos
Faça que os dias vividos
Possam ser todos Natais.


Euclides Cavaco 



sábado, 19 de dezembro de 2020

As Rosas - Poema Sophia de Mello Breyner Andresen





Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.


Sophia de Mello Breyner Andresen,
in "Obra Poética", Ed Caminho, Lisboa, 2010





segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Mar Português




Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.


Fernando Pessoa

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