sexta-feira, 29 de maio de 2020

A TERRA - Miguel Torga




A Terra


Também eu quero abrir-te e semear
Um grão de poesia no teu seio!
Anda tudo a lavrar,
Tudo a enterrar centeio,
E são horas de eu pôr a germinar
A semente dos versos que granjeio.

Na seara madura de amanhã
Sem fronteiras nem dono,
Há de existir a praga da milhã,
A volúpia do sono
Da papoula vermelha e temporã,
E o alegre abandono
De uma cigarra vã.

Mas das asas que agite,
O poema que cante
Será graça e limite
Do pendão que levante
A fé que a tua força ressuscite!

Casou-nos Deus, o mito!
E cada imagem que me vem
É um gomo teu, ou um grito
Que eu apenas repito
Na melodia que o poema tem.

Terra, minha aliada
Na criação!
Seja fecunda a vessada,
Seja à tona do chão,
Nada fecundas, nada,
Que eu não fermente também de inspiração!

E por isso te rasgo de magia
E te lanço nos braços a colheita
Que hás de parir depois...
Poesia desfeita,
Fruto maduro de nós dois.

Terra, minha mulher!
Um amor é o aceno,
Outro a quentura que se quer
Dentro dum corpo nu, moreno!

A charrua das leivas não concebe
Uma bolota que não dê carvalhos;
A minha, planta orvalhos...
Água que a manhã bebe
No pudor dos atalhos.

Terra, minha canção!
Ode de pólo a pólo erguida
Pela beleza que não sabe a pão
Mas ao gosto da vida!


Miguel Torga



sábado, 23 de maio de 2020

Os degraus - Poema de Mário Quintana




Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...



Mário Quintana in (Báu de Espantos)




quinta-feira, 14 de maio de 2020

À Tua Palavra (eu quero ser a luz)





Eu quero ser a luz
Eu quero ser o sal
Chamaste-me, Senhor!
E eu respondo: "Eis-me aqui".
Eu quero ser a luz
Eu quero ser o sal
Tu deste-me a vida
E eu me entrego a Ti.

Este mundo anseia
Pela paz e a verdade
Uma terra que não salga
Um coração que não arde
Eu quero ser a luz
Que enfrenta
Com a força,
A coragem de vencer.

À Tua Palavra
Lançarei as minhas redes
Sei que estás ao meu lado
E eu quero arriscar por ti
Faço-me ao largo
Só em ti eu confio
E quando me sentir cansado
É em teu regaço que descansarei

Cântico Litúrgico

 Letra: Daniel Pereira e Victor Palma





terça-feira, 5 de maio de 2020

Tanta Tristeza nas Águas





Tanta tristeza nas águas
na face que refletia
o espelho frágil da lua
miragem melancolia.

Em que reino vive agora
a princesa que vivia
na infância sob amoreiras
acesas à luz do dia?

Onde o sol, onde o tumulto
de pombas no céu ardente
onde o frio da tarde morta
entre escombros do poente?

Tanta tristeza nas águas
na face que refletia
o espelho frágil da lua
miragem melancolia.

Onde a lua marinheira
no alto céu que surgia –
negro mar cheio de espantos
mordido de ventanias?

Onde o Rei do reino ausente
onde a fada que fazia
do mundo um sono profundo
e do sonho a luz do dia?

Tanta tristeza nas águas
na face que refletia
o espelho frágil da lua
miragem melancolia.


Dora Ferreira da Silva in Poesia Reunida


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