sábado, novembro 23, 2019

Maria das Quimeras - Poema de Florbela Espanca





Maria das Quimeras me chamou
Alguém.. Pelos castelos que eu ergui
P'las flores d'oiro e azul que a sol teci
Numa tela de sonho que estalou.

Maria das Quimeras me ficou;
Com elas na minh'alma adormeci.
Mas, quando despertei, nem uma vi
Que da minh'alma, Alguém, tudo levou!

Maria das Quimeras, que fim deste
Às flores d'oiro e azul que a sol bordaste,
Aos sonhos tresloucados que fizeste?

Pelo mundo, na vida, o que é que esperas?...
Aonde estão os beijos que sonhaste,
Maria das Quimeras, sem quimeras?...


Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade" 

segunda-feira, novembro 18, 2019

A Pedra




Deus fez a pedra rude, a pedra forte,
e depois destinou: -Serás eterna.
Mostrarás a altivez de quem governa,
Não ousará tocar-te a própria morte.

E a pedra julgou linda a sua sorte.
Foi palácio, foi templo, foi caverna,
foi estátua, foi muralha, foi cisterna,
viveu sem coração, sem fé, sem norte.

Mas viu morrer o infante, o monge, a fera,
o herói, o artista, a flor, a fonte, a hera,
e humildemente quis também morrer.

Não grita, não se queixa, não murmura,
guarda a mesma aparência hostil e dura
mas sofre o mal de não poder sofrer.


Maria Fernanda Teles de Castro e Quadros Ferro






domingo, novembro 03, 2019

Madrugada no Campo - Poema de Cecília Meireles




Com que doçura esta brisa penteia
a verde seda fina do arrozal
Nem cílios, nem pluma, nem lume de lânguida
lua, nem o suspiro do cristal.

Com que doçura a transparente aurora
tece na fina seda do arrozal
aéreos desenhos de orvalho! Nem lágrima,
nem pérola, nem íris de cristal...

Com que doçura as borboletas brancas
prendem os fios verdes do arrozal
com seus leves laços! Nem dedos, nem pétalas,
nem frio aroma de anis em cristal.

Com que doçura o pássaro imprevisto
de longe tomba no verde arrozal!
Caído céu, flor azul, estrela última:
súbito sussurro e eco de cristal.


Cecília Meireles 

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