28/01/2019

Veleiro - Poema de Manoel de Andrade




Mar afora, mar adentro
lá vai singrando um veleiro
quem dera ser passageiro
pra correr nas mãos do vento.

Mar adentro, mar afora
como navega ligeiro
cruzando este golfo inteiro
nas cores vivas da aurora.

Onde vais assim tão cedo
rumo à ilha do Arvoredo
levando meu coração…?

Vou navegando contigo
meus olhos te seguem, amigo
perdidos na imensidão.


Manoel de Andrade,  (Baia de Zimbros)




21/01/2019

Eu encheria o teu mundo de flores


Eu encheria o teu mundo de flores - poema António Branco


Eu encheria o teu mundo de flores
Eu navegaria contigo por todos os mares
E conheceria contigo todos os sabores
Só para colocar em teus lindos olhos
O brilho de todas as estrelas do Infinito
Se eu pudesse ter esse teu sorriso sempre por perto
Se eu pudesse ter você
Sempre comigo...


Augusto Branco




Destino - Almeida Garrett





Quem disse à estrela o caminho
Que ela há-de seguir no céu?
A fabricar o seu ninho
Como é que a ave aprendeu?
Quem diz à planta «Floresce!»
E ao mudo verme que tece
Sua mortalha de seda
Os fios quem lhos enreda?

Ensinou alguém à abelha
Que no prado anda a zumbir
Se à flor branca ou à vermelha
O seu mel há-de ir pedir?
Que eras tu meu ser, querida,
Teus olhos a minha vida,
Teu amor todo o meu bem...
Ai!, não mo disse ninguém.

Como a abelha corre ao prado,
Como no céu gira a estrela,
Como a todo o ente o seu fado
Por instinto se revela,
Eu no teu seio divino .
Vim cumprir o meu destino...
Vim, que em ti só sei viver,
Só por ti posso morrer.

Almeida Garrett

14/01/2019

Adormece teu corpo com a Música






Adormece o teu corpo com a música da vida.
Encanta-te.
Esquece-te.
Tem por volúpia a dispersão.
Não queiras ser tu.
Quere ser a alma infinita de tudo.
Troca o teu curto sonho humano
Pelo sonho imortal.
O único.
Vence a miséria de ter medo.
Troca-te pelo Desconhecido.
Não vês, então, que ele é maior?
Não vês que ele não tem fim?
Não vês que ele és tu mesmo?
Tu que andas esquecido de ti?


Cecilia Meireles


01/01/2019

Ondas do Mar - Poema de Fernanda de Castro



A voz do mar entende-a quem do mar
viveu as tempestades e as bonanças,
quem nele pôs cuidados, esperanças,
quem lhe deu seu riso, o seu penar.

Quem fez o seu jardim, o seu pomar,
de búzios, de corais, de areias mansas,
quem ergueu sobre as ondas o seu lar
e por ele cruzou ferros e lanças.

Quem sabe de marés, de luas-cheias
e não teme os tritões nem as sereias
nem, de Neptuno, as barbas e o tridente.

A sua voz entende-a quem, de Sagres,
se fez ao mar em busca de milagres,
- todos nós, neste barco do Ocidente.


Fernanda de Castro




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