sábado, 30 de janeiro de 2021

Sem Bússula, Sem Leme





Cansada, exausta, do labor insano
duma vida incolor, sem fantasia,
vou ver se encontro, noutro meridiano,
a emoção que desejo em cada dia.

Vou procurar, sem lógica, sem plano,
um pouco de aventura, de alegria.
Não mais o miserável quotidiano,
antes o vendaval que a calmaria.

Antes dor... No barco em que navego,
sem bússola, sem leme, louco e cego,
vou procurar inexistentes rotas.

Ó meu veleiro doido, sem governo,
a caminho, talvez, do céu, do inferno,
sobre espumas e asas de gaivotas.


Maria Fernanda Teles de Castro e Quadros Ferro




sábado, 23 de janeiro de 2021

Poema O Vento - Cecília Meireles




O cipreste inclina-se em fina reverência
e as margaridas estremecem, sobressaltadas.

A grande amendoeira consente que balancem
suas largas folhas transparentes ao sol.

Misturam-se uns aos outros, rápidos e frágeis,
os longos fios da relva, lustrosos, lisos cílios verdes.

Frondes rendadas de acácias palpitam inquietantemente
com o mesmo tremor das samambaias
debruçadas nos vasos.

Fremem os bambus sem sossego,
num insistente ritmo breve.

O vento é o mesmo:
mas sua resposta é diferente, em cada folha.

Somente a árvore seca fica imóvel,
entre borboletas e pássaros.

Como a escada e as colunas de pedra,
ela pertence agora a outro reino.
Se movimento secou também, num desenho inerte.
Jaz perfeita, em sua escultura de cinza densa.

O vento que percorre o jardim
pode subir e descer por seus galhos inúmeros:

ela não responderá mais nada,
hirta e surda, naquele verde mundo sussurrante.


Cecília Meireles




sábado, 16 de janeiro de 2021

A Esperança .... Clarice Lispector





Vamos fazer de cada espinho
A esperança de encontrar uma rosa
E de cada dor
A possibilidade de um sorriso.

(Clarice Lispector)






sábado, 9 de janeiro de 2021

Passaro Azul




(Ai, o Pássaro Azul da minha pena, da minha pena, pena, pena…)

Eu tinha um Pássaro Azul,
Azul como o azul do arco-íris.
Não vivia numa floresta,
não morava numa gaiola.
Não era um pássaro de penas e de sangue.
Também não era um pássaro pintado.
Nem escrito. Nem pensado.




Era um pássaro sentido.
Sentido como os cegos vêem as cores,
como os surdos ouvem os sons.
Era demasiado pequeno para os dedos
mas podia encher uma alma.




O Pássaro Azul cantava,
mas a sua música
era uma grande alegria sem risos,
uma grande luz sem noite.
Em quase todas as casas havia silêncio
e o Pássaro Azul cantava.




Porque não havia em todas as casas
uma flor, uma estrela, um pássaro a cantar?
Não abri a porta da gaiola
porque não havia gaiola,
mas com mãos trémulas de esperança
fui buscar o Pássaro Azul
ao fundo da alma,
e abri as mãos
para que houvesse em todas as casas
uma flor, uma estrela, um pássaro a cantar.




Murcharam, porém, todas as flores,
apagaram-se todas as estrelas,
e o Pássaro Azul,
azul como o azul do arco-íris,
ficou frio e cinzento,
um Pássaro Cinzento
como um pássaro de lua.




Então as mãos,
aquelas mãos trémulas de esperança,
tomaram a forma de tépidas conchas,
de pequenos ninhos de calor,
e o verde,
o verde indeciso das marés,
cobriu de esperança as suas penas.
Era agora um Pássaro Verde,
verde e triste.




Então lágrimas lentas o envolveram,
pesada chuva de alma,
e o pássaro ficou branco.




Era agora um Pássaro Branco,
silencioso e triste.
Como um vento furioso,
a Ira sacudiu as raízes da alma,
da alma onde outrora
morava o Pássaro Azul,
mas o Pássaro Branco
era agora vermelho,
um Pássaro Vermelho e assustado,
pesado de solidão.




Então o desespero murchou-lhe as asas,
e ficou roxo como um lírio magoado,
um lírio de paixão,
negro como um céu sem astros,
um Pássaro Negro
tocado de morte.




E de nada serviram as mãos
que se fizeram conchas para o abrigar,
de nada serviu a Esperança,
de nada serviram as lágrimas,
de nada serviu o vendaval da Ira,
nem o Desespero, nem a Dor.
Ferido de silêncio e de morte,
o Pássaro Azul
fechou para sempre as asas
e nunca mais foi azul.




Não, na Ilha do Tesoiro
e do Pássaro Azul
não estão as minhas asas,
não estão nenhumas asas,
ficaram só as penas…

As penas e um tesoiro
que escondi, não sei onde,
quando parti
para a minha viagem sem partida
e sem regresso.

Oh! A minha viagem,
esses longos caminhos da Aventura
que imaginei, imóvel,
no quarto, a horas mortas.
Era tudo miragem,
silêncio, noite escura:
um mar de ondas paradas,
um chão de pedras soltas,
de plantas calcinadas…
Constelações de nuvens,
jardins de campas rasas,
florestas de silêncio,
sem frutos e sem asas.




Então vieste com teu passo lento,
com tuas mãos de flor
e teu sorriso breve,
então vieste, branca e alada,
pura e alada,
numa noite de tédio e nostalgia.
Não perguntaste,
não disseste nada,
mas eras a Poesia,
mas eras tu, Poesia,
meu tesoiro perdido,
meu tesoiro encontrado,
reencontrado.


A Ilha do Tesoiro,
a minha Ilha…

Porque eu tinha uma Ilha,
num continente sem limites
que nenhum mar banhava.
Era a Ilha da Seta,
da metade ascendente
do meu signo de Fogo, o Sagitário,
que não era de terra nem de lava
mas dum estranho calcário,
imponderável, fluido,
inconsistente.
Era a Ilha do mar inexistente,
do céu imaginário,
que julguei povoar de Sonho, de Ilusão,
e afinal povoei
de bolas de sabão.

É a Ilha da grande Solidão…

Fernanda de Castro, in «A Ilha da Grande Solidão», 1962
Extraído de: Fundação António Quadros



Topo