sábado, 23 de janeiro de 2021

Poema O Vento - Cecília Meireles




O cipreste inclina-se em fina reverência
e as margaridas estremecem, sobressaltadas.

A grande amendoeira consente que balancem
suas largas folhas transparentes ao sol.

Misturam-se uns aos outros, rápidos e frágeis,
os longos fios da relva, lustrosos, lisos cílios verdes.

Frondes rendadas de acácias palpitam inquietantemente
com o mesmo tremor das samambaias
debruçadas nos vasos.

Fremem os bambus sem sossego,
num insistente ritmo breve.

O vento é o mesmo:
mas sua resposta é diferente, em cada folha.

Somente a árvore seca fica imóvel,
entre borboletas e pássaros.

Como a escada e as colunas de pedra,
ela pertence agora a outro reino.
Se movimento secou também, num desenho inerte.
Jaz perfeita, em sua escultura de cinza densa.

O vento que percorre o jardim
pode subir e descer por seus galhos inúmeros:

ela não responderá mais nada,
hirta e surda, naquele verde mundo sussurrante.


Cecília Meireles




7 comentários:

  1. Un bello y emotivo poema Maria.
    Un abrazo y buen fin de semana.

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  2. Uma partilha simplesmente bela! :)
    *
    Há prosas que contam estórias
    *
    Beijo, e um bom fim de semana.

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  3. Assim se comprova que as árvores morrem de pé.
    Abraço amigo.
    Juvenal Nunes

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  4. Oi Maria amei por ter compartilhado essa linda poesia de Cecília Meireles. Bjs querida

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  5. Olá Maria
    Cecília Meirelles dispensa qualquer comentário.
    Bem diz seu amigo
    "As árvores morrem de pé", o vento sopra, as borboletas voam, os pássaros pousam e cantam.
    Boa semana, beijos

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  6. Uma linda escolha da Cecília com toda sua sensibilidade.
    Lindo o vento aos olhos de Cecilia.
    Bom fim de semana para vocês.
    Bjo amiga

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