09/04/2026

0 Palavras - Olavo Bilac





As palavras do amor expiram como os versos,
Com que adoço a amargura e embalo o pensamento:
Vagos clarões, vapor de perfumes dispersos,
Vidas que não têm vida, existências que invento;

Esplendor cedo morto, ânsia breve, universos
De pó, que um sopro espalha ao torvelim do vento,
Raios de sol, no oceano entre as águas imersos,
- As palavras da fé vivem num só momento...

Mas as palavras más, as do ódio e do despeito,
O "não!" que desengana, o "nunca!" que alucina,
E as do aleive, em balões, e as da mofa, em risadas,

Abrasam-nos o ouvido e entram-nos pelo peito:
Ficam no coração, numa inércia assassina,
Imóveis e imortais, como pedras geladas.


Olavo Bilac
In Literatura Comentada



05/04/2026

0 Conselho - Maria de Santa Isabel





No meu passado há sol: há claridade,
Que à sombra do futuro resplandece,
Quanto mais o caminho me escurece,
No presente, que é feito de saudade.

Encontro ainda tanta suavidade
Ao relembrar! Ás vezes, me acontece
Sentir o coração que me envelhece,
A reflorir de novo em mocidade!

Sempre é doce o passado recordar:
- Aprende a envelhecer tranquilamente,
Colhe da vida o que ela te quer dar…

Envelhecer assim não custa nada:
É como quem procura, no poente,
A estrela que brilhou na madrugada…


Maria de Santa Isabel




02/04/2026

3 A Árvore - Geir Campos




Ó árvore, quantos séculos levaste
a aprender a lição que hoje me dizes:
o equilíbrio, das flores às raízes,
sugerindo harmonia onde há contraste?

Como consegues evitar que uma haste
e outra se batam, pondo cicatrizes
inúteis sobre os membros infelizes?
Quando as folhas e os frutos comungaste?

Quantos séculos, árvore, de estudos
e experiências — que o vigor consomem
entre vigílias e cismares mudos —

demoraste aprendendo o teu exemplo,
no sossego da selva armada em templo?
Dize: e não há esperança para o Homem?


Geir Campos
Publicado no livro Rosa dos rumos (1950)



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