segunda-feira, 21 de maio de 2018

Como as gaivotas




Esta onda cansada
depois do vendaval,
cheira à praia molhada,
cheira a marisco, a sal.

Traz notícias recentes
de centenas de milhas.
Inundou continentes,
brutal, desflorou ilhas.

Corais, búzios vazios,
conchas, algas em feixes,
destroços de navios
e carcaças de peixes.

Tudo à praia aportou:
bússola, gávea e leme.
A sereia apitou,
agora a onda geme.

Ante-aurora. Acordada,
sonho impossíveis rotas:
partir, de madrugada,
livre como as gaivotas.


 Fernanda de Castro       




                


domingo, 8 de abril de 2018

Retrato de Amigo - Poema de Ary dos Santos





Por ti falo. E ninguém sabe. Mas eu digo
meu irmão    minha amêndoa    meu amigo
meu tropel de ternura    minha casa
meu jardim de carência    minha asa.

Por ti morro e ninguém pensa. Mas eu sigo
um caminho de nardos empestados
uma intensa e terrífica ternura
rodeado de cardos por muitíssimos lados.

Meu perfume de tudo    minha essência
meu lume    minha lava    meu labéu
como é possível não chegar ao cume
de tão lavado céu? 



Ary dos Santos, in 'Fotografias'



terça-feira, 3 de abril de 2018

De além das Montanhas - Fernando Pessoa



De além das montanhas,
De além do luar,
Vêm formas estranhas.
São gémeas do vento,
São só pensamento.
Mudam as entranhas
De as ouvir passar.

Cavalgada rindo
Seu curso do além,
Vem vindo, vem vindo,
E tremem janelas,
Velam-se as estrelas,
(E) os ramos, rugindo,
Falam como alguém.

Mas, súbito, aragem
Que perdeu o som,
Cessou a passagem
Do que tirou calma
Aos ramos e à alma.
Só se ouve a folhagem
Num sussurro bom.

E, abrindo a janela,
Contemplo, a mal ver,
Ao luar uma estrela
Tão vaga, tão vaga,
Que quase se apaga
Quem sabe se ela
Vai também levada,
Qual tanta faltada,
Nessa cavalgada
Que passou sem ser? 


Fernando Pessoa


domingo, 25 de março de 2018

A Hora da Partida - Poema de Sophia de Mello Breyner




A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.

A hora da partida soa quando
as árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.


Sophia de Mello Breyner Andresen