01/08/2026

1 Velas - Maria de Santa Isabel





Lá foram as velas, riscando no vidro
brilhante das águas
mensagens de luz:
legendas de espuma
num adeus de mar largo!
Das asas marinhas salgadas no ar
vinha uma presença de Terra partindo,
além, mundo fora!
em vez dos meus olhos
que, apenas, ao longe,
trouxeram das algas
vestígios de mar…


Maria de Santa Isabel




27/07/2026

1 Pastoral - António Gedeão





Não há, não,
duas folhas iguais em toda a criação.

Ou nervura a menos, ou célula a mais,
não há, de certeza, duas folhas iguais.

Limbo todas têm,
que é próprio das folhas;
pecíolo algumas;
bainha nem todas.
Umas são fendidas,
crenadas, lobadas,
inteiras, partidas,
singelas, dobradas.

Outras acerosas,
redondas, agudas,
macias, viscosas,
fibrosas, carnudas.

Nas formas presentes,
nos atos distantes,
mesmo semelhantes
são sempre diferentes.

Umas vão e caem no charco cinzento,
e lançam apelos nas ondas que fazem;
outras vão e jazem
sem mais movimento.

Mas outras não jazem,
nem caem, nem gritam,
apenas volitam v nas dobras do vento.

É dessas que eu sou.


António Gedeão,
Poesias Completas,






23/07/2026

7 Sombras - Presciliana Duarte de Almeida





Sombras das ramas verdes e floridas,
Sombras das ave a voar cantando,
Sombras pelas aragens sacudidas,
Sombras de criancinhas tacteando,
Que sois de tantas vidas luminosas?
Que sois? — Vagas imagens tenebrosas!

Assim como sombras incolores,
Meus versos vão correndo mundo em fora
Sem reflectir a luz de meus amores,
Sem o brilho das lágrimas que chora
meu doido coração, enluarado.
Pela saudosa luz do meu passado!

Que sois, meus pobres versos forasteiros?
— Sombras daqueles que adorei na vida...
Como as sombras também sois passageiros!
Em que memoria encontrareis guarida?
Os que me adoram morrerão comigo,
E olvidada serei no meu jazigo...


Presciliana Duarte de Almeida





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