04/06/2026

2 As Árvores - Teixeira de Pascoaes





Árvores maternais,
À luz do sol, em dias estivais,
O rústico mendigo,
Junto de vós, encontra abençoado abrigo…

Deita-se, a descansar
Do seu pesado e eterno caminhar.
Sob os ramos em flor,
Que dão à sua mágoa alívio, aroma e cor.

Porque a humana tristeza.
Perante a Natureza,
Embebe-se de azul, de cantos de ave
E se afasta de nós mais pálida e suave.

Ó árvores piedosas.
Pelas manhãs formosas.
Quando etéreo fulgor, que se anuncia.
Vossas lágrimas muda em risos de alegria!

Bendito o vosso corpo imaculado,
A arder, num lar sagrado.
Bendito o vosso fruto e flor, que vem dos céus.
Minhas irmãs em Deus.

Que simpatia imensa
Me prende à sua angélica presença,
Onde, em cristais, retine a voz do rouxinol
E, em tinta verde, coalha a luz do sol!

E que infinita mágoa
Eu sinto, quando o tempo, a escorrer água,
Como um fantasma esvoaça
E lhes despe a verdura, o mimo, a graça.

E têm vozes de choro,
Nas ramagens, que agita um zéfiro de agouro;
São suspiros de dor, ais tristes de abandono,
A elegia do outono.

E esse canto ideal
Satura-me de bruma espiritual;
Dilui-me num crepúsculo sem fim,
E vivo para tudo e morro para mim...


Teixeira de Pascoaes, Vida Etérea (1906)




28/05/2026

3 Quando as crianças brincam - Fernando Pessoa





Quando as crianças brincam
E eu as oiço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar.

E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.

Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no coração.


Fernando Pessoa




21/05/2026

6 Volver às rimas suaves - Reinaldo Ferreira


Pode ver outras incríveis criações digitais na minha galeria: Arte em AI




Volver às rimas suaves,
Aos metros embaladores,
Cantar o canto das aves,
A aurora, a brisa e as flores...

Vibrar na deposta lira
Dos trovadores sepulcrais
Delidas queixas d'Elvira,
Zelos de bardo, fatais...

Para que nessa ficção,
De outras apenas diferente,
Ao fogo do coração
Arda a razão descontente.


Reinaldo Ferreira, (Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira)
In Poemas, 2.ª edição.




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