29/06/2026

O Gato Curioso - Ferreira Gullar


Scrapbooks of a persian cat - AI creation
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Era uma vez
um gato siamês.

Por ser muito engraçadinho,
é chamado de Gatinho.

Além de carinhoso,
ele é muito curioso.

Nada se pode fazer
que ele não deseje ver.

Se alguém mexe na estante,
está lá no mesmo instante.

se vão consertar a pia,
está ele lá de vigia.

E o resultado é que quando
viu seu dono consertando
a tomada da parede,
meteu-se com tanta sede,
a cheirar tudo que... nhoque!
levou um baita de um choque!

E pensar que ele aprendeu?
Mais fácil aprendia eu!

Mantém-se o mesmo abelhudo
que quer dar conta de tudo.


Ferreira Gullar





18/06/2026

O meu Moinho - Maria de Santa Isabel


Scrapbook page with Dutch river and tulips - AI image
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Oh meu velho moinho! Que saudade!
Há quanto tempo já não vinha ver-te!
Minha doce lembrança! Vou dizer-te
O grato sentimento que me invade!

Encontro, agora, em ti a minha infância,
Meu eterno passeio de menina,
Num murmúrio de fonte cristalina
Se avisa em tintas leves e distância!

O meu banco de pedra! O rosmaninho,
Que há tanto aqui deixei e se conserva,
Como em cofre de sonho se reserva,
Florindo no passado, o meu caminho!

A tarde vai caindo, mansamente,
Mas eu nem dou por ela, enternecida,
Como quem vê num sonho a própria vida
A projectar-se ao longe, docemente!

Fico esquecida, assim, a recordar,
Matando esta saudade que trazia!
Como tudo é igual na fantasia
E na tranquila paz deste lugar!

Daqui avisto a minha terra, agora,
Como piedoso altar que se levanta,
Erguendo ao Céu essa Rainha Santa,
Que em milagres floriu, consoladora!

Que importa o tempo?... Eu vivo a fantasia!
Que importa a morte?... A vida é que domina!
Se até, na gota de água cristalina,
O mundo se renova, em cada dia…

Ai quem me dera aqui poder ficar,
Neste velho moinho, recordando!
Sem dar que pelo tempo ia passando,
Sem o tempo consigo me levar…


Maria de Santa Isabel Estremoz – Janeiro de 1945





13/06/2026

5ª Homenagem aos Santos Populares do BLOG do JUVENAL NUNES




Participação na 5ª Homenagem aos Santos Populares do BLOG "Palavras Aladas" do JUVENAL NUNES






Saltam as fogueiras, ergue-se o balão,
Com o manjerico e o cravo na mão,
No bailar da noite, que o povo festeja,
Viva Santo António, S. Pedro e S. João!


🎉 Vivam os Santos Populares!🎈






11/06/2026

Anti-gazetilha (No comboio descendente) - Fernando Pessoa



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No comboio descendente
Vinha tudo à gargalhada,
Uns por verem rir os outros
E os outros sem ser por nada –
No comboio descendente
De Queluz à Cruz Quebrada...

No comboio descendente
Vinham todos à janela,
Uns calados para os outros
E os outros a dar-lhes trela –
No comboio descendente
Da Cruz Quebrada a Palmela...

No comboio descendente
Mas que grande reinação!
Uns dormindo, outros com sono,
E os outros nem sim nem não –
No comboio descendente
De Palmela a Portimão...


Fernando Pessoa, no jornal Sol (1926)





04/06/2026

As Árvores - Teixeira de Pascoaes


Spring landscape Scrapbook page with flowering trees and mountains - AI creation
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Árvores maternais,
À luz do sol, em dias estivais,
O rústico mendigo,
Junto de vós, encontra abençoado abrigo…

Deita-se, a descansar
Do seu pesado e eterno caminhar.
Sob os ramos em flor,
Que dão à sua mágoa alívio, aroma e cor.

Porque a humana tristeza.
Perante a Natureza,
Embebe-se de azul, de cantos de ave
E se afasta de nós mais pálida e suave.

Ó árvores piedosas.
Pelas manhãs formosas.
Quando etéreo fulgor, que se anuncia.
Vossas lágrimas muda em risos de alegria!

Bendito o vosso corpo imaculado,
A arder, num lar sagrado.
Bendito o vosso fruto e flor, que vem dos céus.
Minhas irmãs em Deus.

Que simpatia imensa
Me prende à sua angélica presença,
Onde, em cristais, retine a voz do rouxinol
E, em tinta verde, coalha a luz do sol!

E que infinita mágoa
Eu sinto, quando o tempo, a escorrer água,
Como um fantasma esvoaça
E lhes despe a verdura, o mimo, a graça.

E têm vozes de choro,
Nas ramagens, que agita um zéfiro de agouro;
São suspiros de dor, ais tristes de abandono,
A elegia do outono.

E esse canto ideal
Satura-me de bruma espiritual;
Dilui-me num crepúsculo sem fim,
E vivo para tudo e morro para mim...


Teixeira de Pascoaes, Vida Etérea (1906)




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