27/12/2025

Esperança - Antero de Quental




Já não és tu, visão alada e pura,
Que o meu ser animavas e enchias;
Já não és tu que as ilusões tuas
Vinhas trazer-me, como outrora, um dia.

Mas fico-te a querer. És a Ventura
Que o coração pressente e que confia;
És a doçura ideal, que não se apura,
Mas que envolve a nossa alma de harmonia.

E enquanto assim, celeste e peregrina,
Me fores sempre a estrela matutina,
Que me aponta o caminho entre a vereda

Serei teu crente, e, por onde eu for,
Hei-de levar-te dentro, ó meu Amor,
Como um raio de luz na alma acesa.


Antero de Quental





21/12/2025

Canto de Natal - Poema de Manuel Bandeira





O nosso menino
Nasceu em Belém.
Nasceu tão-somente
Para querer bem.

Nasceu sobre as palhas
O nosso menino.
Mas a mãe sabia
Que ele era divino.

Vem para sofrer
A morte na cruz,
O nosso menino.
Seu nome é Jesus.

Por nós ele aceita
O humano destino:
Louvemos a glória
De Jesus menino.


Manuel Bandeira




18/12/2025

Participação no 5º Encontro Temático do BLOG do JUVENAL NUNES




Aceitando com muito prazer, o convite do amigo Juvenal Nunes do Blogue “Palavras Aladas”, deixo a minha participação no 5º Encontro Temático, com o tema "Poema de Natal".




O Natal é …

Tempo de estender a mão
De perdoar e partilhar
Tempo de abrir o coração
e sementes de amor plantar

Tempo de a paz desejar
De silenciar a nossa dor
De qualquer conflito trocar
Por gestos cheios de amor

Tempo de fé e de esperança
De luz a brilhar no coração
E de em fraterna aliança
Viver em paz e união

Tempo sagrado e divino
Em que Brilha uma luz celestial
Nasceu o Amor feito Menino
É esta a magia do Natal


Boas Festas ✨🎄para TODOS






15/12/2025

Natal de quem? Poema de João Coelho dos Santos





Mulheres atarefadas
Tratam do bacalhau,
Do perú, das rabanadas.

-- Não esqueças o colorau,
O azeite e o bolo-rei!

- Está bem, eu sei!

- E as garrafas de vinho?

- Já vão a caminho!

- Oh mãe, estou pr'a ver
Que prendas vou ter.
Que prendas terei?

- Não sei, não sei...

Num qualquer lado,
Esquecido, abandonado,
O Deus-Menino
Murmura baixinho:

- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?

Senta-se a família
À volta da mesa.
Não há sinal da cruz,
Nem oração ou reza.
Tilintam copos e talheres.
Crianças, homens e mulheres
Em eufórico ambiente.
Lá fora tão frio,
Cá dentro tão quente!

Algures esquecido,
Ouve-se Jesus dorido:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?

Rasgam-se embrulhos,
Admiram-se as prendas,
Aumentam os barulhos
Com mais oferendas.
Amontoam-se sacos e papeis
Sem regras nem leis.
E Cristo Menino
A fazer beicinho:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?

O sono está a chegar.
Tantos restos por mesa e chão!
Cada um vai transportar
Bem estar no coração.
A noite vai terminar
E o Menino, quase a chorar:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?
Foi a festa do Meu Natal
E, do princípio ao fim,
Quem se lembrou de Mim?
Não tive teto nem afeto!

Em tudo, tudo, eu medito
E pergunto no fechar da luz:

- Foi este o Natal de Jesus?!!!


João Coelho dos Santos, in Lágrima do Mar – 1996



08/12/2025

XVI Interação Fraterna de Natal da amiga Rosélia




Participando com muito prazer no convite da Amiga Rosélia do Blogue Espiritual Idade, deixo o meu contributo nesta fraterna e bela interação de Natal, são versos simples, sem regras pois não as conheço, mas vindos do meu coração.




O Tema deste ano é: Renovação Espiritual


No silêncio da noite de Natal,
Nasce em nós um brilho especial.
A alma acorda, em doce emoção,
Trazendo esperança e renovação.

Que o Natal inspire cada olhar,
E a luz da vida volte a cintilar.
Pois cada gesto, de amor fraternal,
É semente viva de renovação espiritual.

Entre o calor de uma fé tão especial,
Renasce o verdadeiro espirito do Natal.
Deixamos a dor, abraçamos a gratidão,
E o mundo respira de paz e renovação.

Maria




Um Feliz Natal para TODOS


05/12/2025

Voz do menino da escola diante do Presépio - Armando Cortês





Menino Jesus
nas palhas dormindo
bem se vê que sonha
um sonho tão lindo.

Menino Jesus
nas palhas deitado,
tanto que tu sabes
e sempre calado.

Eu cá já sei ler
escrever, contar!
Que tens, meu Menino
para me ensinar?

Seus lábios sorrindo
abriram-se em flor
e o Menino disse:
- A lição do Amor!


Armando Cortês Rodrigues






02/12/2025

Não desperdicem seus sonhos - Walter Dimenstein





Guardei mil sonhos a esmo
Em lugares que não sei mesmo
Com receio de perdê-los
E não consigo reavê-los
Como fui tolo escondê-los
Pois o viver nunca espera
Por um sonho ou uma quimera
E aos jovens da “nova era”
Colham seus dourados pomos
Não desperdicem seus sonhos.


Walter Dimenstein
Médico e poeta pernambucano



28/11/2025

Luar - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen





O luar enche a terra de miragens
E as coisas têm hoje uma alma virgem,
O vento acordou entre as folhagens
Uma vida secreta e fugitiva,
Feita de sombra e luz, terror e calma,
Que é o perfeito acorde da minha alma.


Sophia de Mello Breyner Andresen





24/11/2025

Aldeia - Poema de Manuel da Fonseca





Nove casas,
duas ruas,
ao meio das ruas
um largo,
ao meio do largo
um poço de água fria.

Tudo isto tão parado
e o céu tão baixo
que quando alguém grita para longe
um nome familiar,
se assustam pombos bravos
e acordam ecos no descampado.


Manuel da Fonseca,
in Poemas Completos



18/11/2025

Tarde de Música - Florbela Espanca





Só Schumann, meu Amor! Serenidade...
Não assustes os sonhos... Ah!, não varras
As quimeras... Amor, senão esbarras
Na minha vaga imaterialidade...

Liszt, agora, o brilhante; o piano arde...
Beijos alados... ecos de fanfarras...
Pétalas dos teus dedos feito garras...
Como cai em pó de oiro o ar da tarde!

Eu olhava para ti... “É lindo! Ideal!”
Gemeram nossas vozes confundidas.
- Havia rosas cor-de-rosa aos molhos –

Falavas de Liszt e eu... da musical
Harmonia das pálpebras descidas,
Do ritmo dos teus cílios sobre os olhos..


Florbela Espanca
In ‘Reliquiae’





13/11/2025

Balada de Sempre - Fernando Namora




Espero a tua vinda
a tua vinda,
em dia de lua cheia.

Debruço-me sobre a noite
a ver a lua a crescer, a crescer...

Espero o momento da chegada
com os cansaços e os ardores de todas as chegadas...

Rasgarás nuvens de ruas densas,
Alagarás vielas de bêbados transformadores.
Saltarás ribeiros, mares, relevos...
- A tua alma não morre
aos medos e às sombras!

Mas...,
Enquanto deixo a janela aberta
para entrares,
o mar,
aí além,
sempre duvidoso,
desenha interrogações na areia molhada...


Fernando Namora in “Relevos”




08/11/2025

Espanto - Maria Alberta Menéres





Uma gota de chuva
suspensa de um telhado

dá-lhe o sol e parece
pequena maravilha

É um berlinde, dizem
crianças entre si

É uma bola, e bela
mas não rebola, brilha!

É a lua? Uma bolha
de sabão de brincar?

Um balão? Um brilhante
de uma estrela vaidosa?

Diz a velhinha olhando:
Quem chorou essa lágrima?

Uma gota de chuva
suspensa de um telhado:

chegou uma andorinha
engoliu-a e voou.

Maria Alberta Rovisco Garcia Menéres de Melo e Castro




03/11/2025

Verdes são os campos - Luís de Camões





Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.


Luís Vaz de Camões




30/10/2025

Prece - Maria de Santa Isabel





Ave Maria, minha Mãe do Céu:
Novembro, o mês da morte, aproximou-se,
Toldando o nosso olhar como se fosse
Um denso véu.
Há rosas desmaiadas no canteiro;
É triste a luz do dia;
Parece que um anseio de agonia
Envolve o mundo inteiro!

Rezemos pelos mortos, nesta hora;
Oh Mãe do Céu, ouvi a nossa prece!
Olhai, até parece
Que a natureza chora!
A chuva cai, espavorida;
o vento agita-se, bravio,
Transindo-nos de frio
A alma dolorida!

- Dai aos mortos, Senhor, a paz infinda
Que só no Céu existe,
E os vivos, neste mundo, hostil e triste,
Uma crença maior, maior ainda!


Maria de Santa Isabel




24/10/2025

Dia de Outono - Rainer Maria Rilke





Senhor, foi um verão imenso: é hora.
Estende as tuas sombras nos relógios
de sol e solta os ventos prado afora.

Instiga a sazonarem, com dois dias
a mais de sul, as frutas que, tardias,
conduzes rumo à plenitude, e apura,
no vinho denso, a última doçura.

Quem não tem lar já não terá; quem mora
sozinho há de velar e ler sozinho,
escrever longas cartas e, a caminho
de nada, há de trilhar ruas agora,
enquanto as folhas caem em torvelinho


Rainer Maria Rilke
Tradução de Nelson Ascher,


18/10/2025

A Voz da Saudade - Bernardina Vilar




Se cai a noite plácida, serena,
Tão branca de luar — doce magia...
A carícia da brisa torna a cena,
Num requinte envolvente de poesia.

O azul do céu de uma beleza extrema
Povoado de estrelas irradia,
E qual o encantamento de um poema
Faz palpitar sutil melancolia.

No Coração da mata um mocho pia
Rompendo a solidão num tom dolente,
Como um canto de amarga soledade.

E o coração da gente silencia
Porque mais alto que sua voz ardente
Fala a voz merencória da saudade.


Bernardina Vilar



14/10/2025

Pelos Campos - Hermann Hesse




Pelos céus passam as nuvens,
sobre os campos sopra o vento,
pelos campos erra o filho
perdido de minha mãe.

Pelas ruas rolam folhas,
sobre as árvores há pássaros.
Sobre as montanhas, em algum lugar
minha pátria há de estar.

Hermann Hesse




11/10/2025

Sonhar - Helena Kolody





Sonhar é transportar-se em asas de ouro e aço
Aos páramos azuis da luz e da harmonia;
É ambicionar o céu; é dominar o espaço,
Num vôo poderoso e audaz da fantasia.

Fugir ao mundo vil, tão vil que, sem cansaço,
Engana, e menospreza, e zomba, e calunia;
Encastelar-se, enfim, no deslumbrante paço
De um sonho puro e bom, de paz e de alegria.

É ver no lago um mar, nas nuvens um castelo,
Na luz de um pirilampo um sol pequeno e belo;
É alçar, constantemente, o olhar ao céu profundo.

Sonhar é ter um grande ideal na inglória lida:
Tão grande que não cabe inteiro nesta vida,
Tão puro que não vive em plagas deste mundo.


Helena Kolody



08/10/2025

Ode para engomar - Pablo Neruda





A poesia é branca:
sai da água envolta em gotas,
enruga-se e amontoa-se,
é preciso estender a pele deste planeta,
é preciso engomar o mar com a sua brancura
e vão e vêm as mãos,
alisam as sagradas superfícies
e assim se engendram as coisas:
dia a dia fazem as mãos o mundo,
une-se o fogo ao aço,
chegam o linho, o algodão e o cotim
da faina das lavandarias
e nasce da luz uma pomba:
a pureza regressa da espuma.


Pablo Neruda
In Plenos Poderes





05/10/2025

Noturno - Florbela Espanca





Amor! Anda o luar todo bondade,
Beijando a terra, a desfazer-se em luz...
Amor! São os pés brancos de Jesus
Que andam pisando as ruas da cidade!

E eu ponho-me a pensar... Quanta saudade
Das ilusões e risos que em ti pus!
Traçaste em mim os braços duma cruz,
Neles pregaste a minha mocidade!

Minh'alma, que eu te dei, cheia de mágoas,
E nesta noite o nenúfar dum lago
'Stendendo as asas brancas sobre as águas!

Poisa as mãos nos meus olhos com carinho,
Fecha-os num beijo dolorido e vago...
E deixa-me chorar devagarinho...


Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"



01/10/2025

Luar póstumo - Poema de Cecília Meireles





Numa noite de lua escreverei palavras,
simples palavras tão certas
que hão de voar para longe, com asas súbitas,
e pousar nessas torres das mudas vidas inquietas.


O luar que esteve nos meus olhos, uma noite,
nascerá de novo no mundo.
Outra vez brilhará, livre de nuvens e telhados,
livre de pálpebras, e num país sem muros.


Por esse luar formado em minhas mãos, e eterno,
é doce caminhar, viver o que se vive.
Porque a noite é tão grande... Ah, quem faz tanta noite?
E estar próximo é tão impossível!



Cecília Meireles
In: Poesia Completa




27/09/2025

O Lago - Júlia Cortines





Um pouco d’água só, e, ao fundo, areia ou lama.
Um pouco d’água em que, no entanto, se retrata
O pássaro que o voo aos ares arrebata,
E o rubro e infindo céu do crepúsculo em chama.

Água que se transmuta em reluzente prata,
Quando, do bosque em flor, que as brisas embalsama,
A lua, como uma áurea e finíssima trama,
Pelos ombros da Noite a sua luz desata.

Poeta, como esse lago adormecido e mudo,
Onde não há, sequer, um frêmito de vida,
Onde tudo é ilusório e passageiro é tudo,

Existem, sobre um fundo, ou de lama ou de areia,
Almas em que tu vês apenas refletida
A tua alma, onde o sonho astros de oiro semeia.


Júlia Cortines
de Vibrações – 1905




23/09/2025

A Flor do Sonho - Florbela Espanca





A Flor do Sonho, alvíssima, divina,
Miraculosamente abriu em mim,
Como se uma magnólia de cetim
Fosse florir num muro todo em ruína.

Pende em meu seio a haste branda e fina
E não posso entender como é que, enfim,
Essa tão rara flor abriu assim! ...
Milagre ... fantasia ... ou, talvez, sina ...

Ó Flor que em mim nasceste sem abrolhos,
Que tem que sejam tristes os meus olhos
Se eles são tristes pelo amor de ti?! ...

Desde que em mim nasceste em noite calma,
Voou ao longe a asa da minha’alma
E nunca, nunca mais eu me entendi ...


Florbela Espanca



20/09/2025

Tempo de Amor - Lupe Cotrim





A chuva de outono molha
o peso de minha altura
e tal rosa que desfolha
tenho pétalas na figura.

Por entre árvore e deserto
eu danço minha existência
de tudo longe e tão perto,
numa presença de ausência.

Irei por tudo que for;
Nessa posse do universo
carrego um tempo de amor
pelas tardes do meu verso.


Lupe Cotrim
in Encontro




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