23/09/2018

7 Ó peso do coração!




Ó peso do coração!
Na grande noite da vida,
teus pesares que serão?


A sorte amadurecida
resplandece em minha mão:
lúcida, clara, polida.


Nem saudade nem paixão
nem morte nem despedida
seu brilho escurecerão.


Na grande noite da vida
brilha a sorte. O coração,
porém, é a dor desmedida.


Maior que a sorte e que a vida...



Cecília Meireles
In: Canções (1956)

18/09/2018

0 Entre a árvore e o vê-la




Entre a árvore e o vê-la
Onde está o sonho?
Que arco da ponte mais vela
Deus?... E eu fico tristonho
Por não saber se a curva da ponte
É a curva do horizonte...

Entre o que vive e a vida
Pra que lado corre o rio?
Árvore de folhas vestida -
Entre isso e Árvore há fio?
Pombas voando - o pombal
Está-lhes sempre à direita, ou é real?

Deus é um grande Intervalo,
Mas entre quê e quê?...
Entre o que digo e o que calo
Existo? Quem é que me vê?
Erro-me... E o pombal elevado
Está em torno na pomba, ou de lado?


Fernando Pessoa

16/09/2018

7 Contemplo o Lago Mudo



Contemplo o lago mudo
Que uma brisa estremece.
Não sei se penso em tudo
Ou se tudo me esquece.

O lago nada me diz,
Não sinto a brisa mexê-lo
Não sei se sou feliz
Nem se desejo sê-lo.

 Trémulos vincos risonhos
Na água adormecida.
Por que fiz eu dos sonhos
A minha única vida?


Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"


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