21/01/2019

0 Destino - Almeida Garrett





Quem disse à estrela o caminho
Que ela há-de seguir no céu?
A fabricar o seu ninho
Como é que a ave aprendeu?
Quem diz à planta «Floresce!»
E ao mudo verme que tece
Sua mortalha de seda
Os fios quem lhos enreda?

Ensinou alguém à abelha
Que no prado anda a zumbir
Se à flor branca ou à vermelha
O seu mel há-de ir pedir?
Que eras tu meu ser, querida,
Teus olhos a minha vida,
Teu amor todo o meu bem...
Ai!, não mo disse ninguém.

Como a abelha corre ao prado,
Como no céu gira a estrela,
Como a todo o ente o seu fado
Por instinto se revela,
Eu no teu seio divino .
Vim cumprir o meu destino...
Vim, que em ti só sei viver,
Só por ti posso morrer.

Almeida Garrett

14/01/2019

4 Adormece teu corpo com a Música






Adormece o teu corpo com a música da vida.
Encanta-te.
Esquece-te.
Tem por volúpia a dispersão.
Não queiras ser tu.
Quere ser a alma infinita de tudo.
Troca o teu curto sonho humano
Pelo sonho imortal.
O único.
Vence a miséria de ter medo.
Troca-te pelo Desconhecido.
Não vês, então, que ele é maior?
Não vês que ele não tem fim?
Não vês que ele és tu mesmo?
Tu que andas esquecido de ti?


Cecilia Meireles


01/01/2019

7 Ondas do Mar - Poema de Fernanda de Castro



A voz do mar entende-a quem do mar
viveu as tempestades e as bonanças,
quem nele pôs cuidados, esperanças,
quem lhe deu seu riso, o seu penar.

Quem fez o seu jardim, o seu pomar,
de búzios, de corais, de areias mansas,
quem ergueu sobre as ondas o seu lar
e por ele cruzou ferros e lanças.

Quem sabe de marés, de luas-cheias
e não teme os tritões nem as sereias
nem, de Neptuno, as barbas e o tridente.

A sua voz entende-a quem, de Sagres,
se fez ao mar em busca de milagres,
- todos nós, neste barco do Ocidente.


Fernanda de Castro




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