13/02/2026

Antes de amar-te nada era meu - Pablo Neruda





Antes de amar-te, amor, nada era meu
Vacilei pelas ruas e as coisas:
Nada contava nem tinha nome:
O mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
Túneis habitados pela lua,
Hangares cruéis que se despediam,
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
Caído, abandonado e decaído,
Tudo era inalienavelmente alheio,
Tudo era dos outros e de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas encheram o outono.


Pablo Neruda
Cem sonetos de amor.




06/02/2026

Silêncio - Maria de Santa Isabel




O silêncio da noite ergueu-se, agora,
Como fantasma que surgiu da bruma:
Silêncio enorme que se esfuma...
A vida é outra, agora;
A noite a idealiza...
A noite elege a calma Poesia,
Como um gesto de Deus, acaricia...
Tudo se abranda e purifica...
Minha alma é toda branca:
Sobre o negro da noite, ela aparece
Como gema de luz,
Que, em estojo de sonho, resplandece...


Maria de Santa Isabel



02/02/2026

Arte poética - Vitorino Nemésio





A poesia do abstracto?
Talvez.
Mas um pouco de calor,
A exaltação de cada momento.
É melhor.
Quando sopra o vento
Há um corpo na lufada;
Quando o fogo alteou
A primeira fogueira,
Apagando-se fica alguma coisa queimada.
É melhor!
Uma ideia,
Só como sangue de problema;
No mais, não,
Não me interessa.
Uma ideia
Vale como promessa,
E prometer é arquear
A grande flecha.
O flanco das coisas só sangrando me comove,
E uma pergunta é dolorida
Quando abre brecha.
Abstracto!
O abstracto é sempre redução,
Secura.
Perde,
E diante de mim o mar que se levanta é verde:
Molha e amplia.
Por isso, não:
Nem o abstracto nem o concreto
são propriamente poesia.
Poesia é outra coisa.
Poesia e abstracto, não.


Vitorino Nemésio





30/01/2026

Uma Vida Cantada me Rodeia - Cecília Meireles





Uma vida cantada me rodeia.
Mas pergunto-me até onde me alcança
o canto que me envolve e me protege.

Qual será o meu destino verdadeiro?
De onde vem essa morte? e que sentido
tem o desejo de suster a vida?

E que vida oferece a voz que canta?
Por que roubar à sorte do silêncio
o náufrago, entre mil, que em nós levamos?

Casualidade humana obscura e incerta...
quem fomos? quem seríamos? quem somos
se o canto nos envolve e rasga o tempo

e - em que hora isenta? - nos deixa a salvo.


Cecília Meireles
In Solombra



24/01/2026

Canção das Aves - António Correia de Oliveira





 Benditos sejam os ramos
De generosa beleza
Nossa casa e nossa mesa,
E dos filhos que criamos.

De manhã, mal acordamos.
Louvamos a natureza;
Em cantos também se reza:
Eis porque tanto cantamos!

Vamos, depois, campos fora,
Chamando a fonte que chora
Refrescando a luz em brasa

Mas nada igual à alegria
De voltar, ao fim do dia,
Ao seio da nossa casa!


António Correia de Oliveira



18/01/2026

AMO-TE - Elizabeth Barrett Browning




Amo-te quanto em largo, alto e profundo
Minh'alma alcança quando, transportada,
sente, alongando os olhos deste mundo,
os fins do ser, a graça entresonhada.

Amo-te a cada dia, hora e segundo
A luz do sol, na noite sossegada
e é tão pura a paixão de que me inundo
Quanto o pudor dos que não pedem nada.

Amo-te com a dor, das velhas penas
com sorrisos, com lágrimas de prece,
e a fé de minha infância, ingênua e forte.

Amo-te até nas coisas mais pequenas,
por toda vida, e assim DEUS o quiser
Ainda mais te amarei depois da morte.


Elizabeth Barrett Browning
Nota: A tradução deste poema foi feita pelo também poeta Manuel Bandeira.




13/01/2026

Viajar - Poema de Alves Redol




Viajar é correr mundo,
voar mais alto que os pássaros
ou pisar o chão da Terra
ou as ondas do Mar Alto...
É ver bichos
de muitas cores e feitios,
montanhas,
rios,
e ribeiros
e pessoas
e lugares...
Conhecer e descobrir,
inventar e duvidar,
sabendo cada vez mais,
sem nunca pensar que basta
o mundo que se conhece.
E alargá-lo com amor
dentro de nós e dos outros.


Alves Redol



09/01/2026

As Árvores - Jorge Sousa Braga




As árvores como os livros têm folhas
e margens lisas ou recortadas,
e capas (isto é copas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas.

E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas,
no pecíolo, no limbo, nas nervuras.

As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».

É evidente que não podes plantar
no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras.

Jorge Sousa Braga




05/01/2026

Inverno - Guerra Junqueiro





A asa do vento gela. O céu desaba
Em nuvens densas, duras, sem alento.
Nas árvores cansadas, a nortada
Dobra os ramos ao peso do momento.

Que longa que é a noite! E como é fria!
Mas brilha a luz humilde de um candeeiro,
E dentro dela cabe um sol inteiro:
O calor de uma mão, de uma alegria.


Guerra junqueiro





02/01/2026

Hino à Razão - Antero de Quental




Razão, irmã do Amor e da Justiça,
Mais uma vez escuta a minha prece.
É a voz dum coração que te apetece,
Duma alma livre, só a ti submissa.

Por ti é que a poeira movediça
De astros e sóis e mundos permanece;
E é por ti que a virtude prevalece,
E a flor do heroísmo medra e viça.

Por ti, na arena trágica, as nações
Buscam a liberdade, entre os clarões;
E os que olham o futuro e cismam, mudos,

Por ti, podem sofrer e não se abatem,
Mãe de filhos robustos, que combatem
Tendo o teu nome escrito em seus escudos!


Antero de Quental




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