09/01/2026

1 As Árvores - Jorge Sousa Braga




As árvores como os livros têm folhas
e margens lisas ou recortadas,
e capas (isto é copas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas.

E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas,
no pecíolo, no limbo, nas nervuras.

As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».

É evidente que não podes plantar
no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras.

Jorge Sousa Braga




05/01/2026

4 Inverno - Guerra Junqueiro





A asa do vento gela. O céu desaba
Em nuvens densas, duras, sem alento.
Nas árvores cansadas, a nortada
Dobra os ramos ao peso do momento.

Que longa que é a noite! E como é fria!
Mas brilha a luz humilde de um candeeiro,
E dentro dela cabe um sol inteiro:
O calor de uma mão, de uma alegria.


Guerra junqueiro





02/01/2026

3 Hino à Razão - Antero de Quental




Razão, irmã do Amor e da Justiça,
Mais uma vez escuta a minha prece.
É a voz dum coração que te apetece,
Duma alma livre, só a ti submissa.

Por ti é que a poeira movediça
De astros e sóis e mundos permanece;
E é por ti que a virtude prevalece,
E a flor do heroísmo medra e viça.

Por ti, na arena trágica, as nações
Buscam a liberdade, entre os clarões;
E os que olham o futuro e cismam, mudos,

Por ti, podem sofrer e não se abatem,
Mãe de filhos robustos, que combatem
Tendo o teu nome escrito em seus escudos!


Antero de Quental




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