Mostrar mensagens com a etiqueta Poemas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Poemas. Mostrar todas as mensagens

10/09/2026

0 As aldeias - António Gomes Leal





Eu gosto das aldeias sossegadas,
com o seu aspeto calmo e pastoril,
erguidas nas colinas azuladas,
mais frescas que as manhãs finas de Abril.

Pelas tardes das eiras, como eu gosto
de sentir a sua vida ativa e sã!
Vê-las na luz dolente do sol posto,
e nas suaves tintas da manhã!...

As crianças do campo, ao amoroso
calor do dia, folgam seminuas,
e exala-se um sabor misterioso
de agreste solidão das suas ruas.

Alegram as paisagens as crianças
mais cheias de murmúrios do que um ninho:
e elevam-nos às coisas simples, mansas,
ao fundo, as brancas velas dum moinho.

Pelas noites de Estio, ouvem-se os ralos
zunirem nas suas notas sibilantes...
E mistura-se o uivar dos cães distantes
com o cântico metálico dos galos.


António Gomes Leal





03/09/2026

3 Poema escrito na água - Afonso Estebanez


Pode ver outras criações digitais na minha galeria: Arte em AI



Minha mão volta a escrever
entre as páginas das águas
onde o amor me volte a ler
a história de suas lágrimas.

Que nunca me falte a tinta
para o branco da memória
que amor é mágoa distinta
da mágoa de toda história.

E entre as páginas viradas
que inundam meu coração
deixo mágoas derramadas
com sabor de uma canção.

Quantas delas já verteram
das águas todas passadas
e de espuma converteram
dor em flores restauradas.

Minha mão vem descrever
como faz a flor das águas
que reescreve o alvorecer
da vida isenta de mágoas


Afonso Estebanez




28/08/2026

6 O Sorriso - Rosa Lobato Faria


Pode ver outras criações digitais na minha galeria: Arte em AI




O sorriso é uma chave
Que abre portas e janelas.
Entre muitas coisas mágicas
O sorriso é uma delas.

O sorriso é simpatia
Também pode ser amor.
O sorriso tem magia
Tem ternura e calor.

O sorriso dá carinho
O sorriso faz amigos.
Constrói tu, no teu caminho
Uma ponte de sorrisos.


Rosa Lobato de Faria, "Sorriso"





24/08/2026

2 Gato - Alexandre O'Neill


Pode ver outras criações digitais na minha galeria: Arte em AI




Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pêlo, frio no olhar!

De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?


Alexandre O'Neill





20/08/2026

8 Por Delicadeza - Sophia de Melllo Breyner Andresen


Pode ver outras criações digitais na minha galeria: Arte em AI



Bailarina fui
Mas nunca dancei
Em frente das grades
Só três passos dei

Tão breve o começo
Tão cedo negado
Dancei no avesso
Do tempo bailado

Dançarina fui
Mas nunca bailei
Deixei-me ficar
Na prisão do rei

Onde o mar aberto
E o tempo lavado?
Perdi-me tão perto
Do jardim buscado

Bailarina fui
Mas nunca bailei
Minha vida toda
Como cega errei

Minha vida atada
Nunca a desatei
Como Rimbaud disse
Também direi:

"Juventude ociosa
Por tudo iludida
Por delicadeza
Perdi minha vida."


Sophia de Mello Breyner Andresen




13/08/2026

5 Vozes de animais - Pedro Dinis


Pode ver outras criações digitais na minha galeria: Arte em AI



Palram pega e papagaio,
E cacareja a galinha;
Os ternos pombos arrulham,
Geme a rola inocentinha.

Muge a vaca, berra o touro,
Grasna a rã, ruge o leão
O gato mia, uiva o lobo,
Também uiva e ladra o cão.

Relincha o nobre cavalo,
Os elefantes dão urros
A tímida ovelha bala,
Zurrar é próprio dos burros.

Regouga a sagaz raposa
(bichinho muito matreiro);
Nos ramos cantam as aves,
Mas pia o mocho agoureiro.

Sabem as aves ligeiras
O canto seu variar;
Fazem gorjeios às vezes,
Às vezes põem-se a chilrar.

O pardal, daninho aos campos,
Não aprendeu a cantar:
Como os ratos e as doninhas
Apenas sabe chiar.

O negro corvo crocita,
Zune o mosquito enfadonho;
A serpente no deserto
Solta assobio medonho.

Chia a lebre, grasna o pato,
Ouvem-se os porcos grunhir;
Libando o suco das flores,
Costuma a abelha zumbir.

Bramem os tigres, as onças,
Pia, pia, o pintainho;
Cucurita e canta o galo,
Late e gane o cachorrinho.

A vitelinha dá berros;
O cordeirinho, balidos;
O macaquinho dá guinchos,
A criancinha vagidos.

A fala foi dada ao homem,
Rei dos outros animais:
Nos versos lidos acima
Se encontram, em pobre rima,
As vozes dos principais.


Pedro Dinis,
Tesouro Poético da Infância,





06/08/2026

2 Gato que Brincas na Rua - Fernando Pessoa


Pode ver outras criações digitais na minha galeria: Arte em AI



 Gato que brincas na rua
como se fosse na cama
invejo a sorte que é tua
porque nem sorte se chama

bom servo das leis fatais
que reges terras e gentes
que tens instintos gerais
e sentes só o que sentes

és feliz porque és assim
todo nada que és é teu
eu vejo-me e estou sem mim
conheço-me e não sou eu


Fernando Pessoa






01/08/2026

7 Velas - Maria de Santa Isabel


Pode ver outras criações digitais na minha galeria: Arte em AI



Lá foram as velas, riscando no vidro
brilhante das águas
mensagens de luz:
legendas de espuma
num adeus de mar largo!
Das asas marinhas salgadas no ar
vinha uma presença de Terra partindo,
além, mundo fora!
em vez dos meus olhos
que, apenas, ao longe,
trouxeram das algas
vestígios de mar…


Maria de Santa Isabel




27/07/2026

2 Pastoral - António Gedeão





Não há, não,
duas folhas iguais em toda a criação.

Ou nervura a menos, ou célula a mais,
não há, de certeza, duas folhas iguais.

Limbo todas têm,
que é próprio das folhas;
pecíolo algumas;
bainha nem todas.
Umas são fendidas,
crenadas, lobadas,
inteiras, partidas,
singelas, dobradas.

Outras acerosas,
redondas, agudas,
macias, viscosas,
fibrosas, carnudas.

Nas formas presentes,
nos atos distantes,
mesmo semelhantes
são sempre diferentes.

Umas vão e caem no charco cinzento,
e lançam apelos nas ondas que fazem;
outras vão e jazem
sem mais movimento.

Mas outras não jazem,
nem caem, nem gritam,
apenas volitam v nas dobras do vento.

É dessas que eu sou.


António Gedeão,
Poesias Completas,






23/07/2026

7 Sombras - Presciliana Duarte de Almeida





Sombras das ramas verdes e floridas,
Sombras das ave a voar cantando,
Sombras pelas aragens sacudidas,
Sombras de criancinhas tacteando,
Que sois de tantas vidas luminosas?
Que sois? — Vagas imagens tenebrosas!

Assim como sombras incolores,
Meus versos vão correndo mundo em fora
Sem reflectir a luz de meus amores,
Sem o brilho das lágrimas que chora
meu doido coração, enluarado.
Pela saudosa luz do meu passado!

Que sois, meus pobres versos forasteiros?
— Sombras daqueles que adorei na vida...
Como as sombras também sois passageiros!
Em que memoria encontrareis guarida?
Os que me adoram morrerão comigo,
E olvidada serei no meu jazigo...


Presciliana Duarte de Almeida





16/07/2026

6 Os Amigos Amei - Eugénio de Andrade


Friendly children on the beach - AI scrapbook image
Pode ver outras criações digitais na minha galeria: Arte em AI



Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria —
por mais amarga.


Eugénio de Andrade
in "Coração do Dia"






09/07/2026

4 Se tu visses o que eu vi - Lengalenga



Surreal image of a dog and chicks at forest - AI creation
Pode ver outras criações digitais na minha galeria: Arte em AI




Se tu visses o que eu vi,
havias de te admirar.
Uma cadela com pintos,
uma galinha a ladrar.

Se tu visses o que eu vi,
havias de te admirar.
Uma cobra a tirar água,
e um cavalo a dançar.

Se tu visses o que eu vi,
havias de te admirar.
Uma abelha a grunhir,
e um porco a voar.

Se tu visses o que eu vi,
Fugias como eu fugi,
Uma cobra a tirar água,
E outra a regar o jardim.


Lengalengas Populares





04/07/2026

5 De um Mágico Encontrar - Walter Dimenstein





Se todo momento é hora
De um doce aconchegar
Não desperdices o AGORA
Que escapa pelo ar
E se pretendes amar
Sem qualquer pestanejar
Manda a solidão embora
Em vez de se lamentar
Pois todo momento é hora
De um mágico encontrar.


Walter Dimenstein
Médico e poeta pernambucano




29/06/2026

4 O Gato Curioso - Ferreira Gullar


Scrapbooks of a persian cat - AI creation
Pode ver outras incríveis criações digitais na minha galeria: Arte em AI




Era uma vez
um gato siamês.

Por ser muito engraçadinho,
é chamado de Gatinho.

Além de carinhoso,
ele é muito curioso.

Nada se pode fazer
que ele não deseje ver.

Se alguém mexe na estante,
está lá no mesmo instante.

se vão consertar a pia,
está ele lá de vigia.

E o resultado é que quando
viu seu dono consertando
a tomada da parede,
meteu-se com tanta sede,
a cheirar tudo que... nhoque!
levou um baita de um choque!

E pensar que ele aprendeu?
Mais fácil aprendia eu!

Mantém-se o mesmo abelhudo
que quer dar conta de tudo.


Ferreira Gullar





18/06/2026

6 O meu Moinho - Maria de Santa Isabel


Scrapbook page with Dutch river and tulips - AI image
Pode ver outras incríveis criações digitais na minha galeria: Arte em AI



Oh meu velho moinho! Que saudade!
Há quanto tempo já não vinha ver-te!
Minha doce lembrança! Vou dizer-te
O grato sentimento que me invade!

Encontro, agora, em ti a minha infância,
Meu eterno passeio de menina,
Num murmúrio de fonte cristalina
Se avisa em tintas leves e distância!

O meu banco de pedra! O rosmaninho,
Que há tanto aqui deixei e se conserva,
Como em cofre de sonho se reserva,
Florindo no passado, o meu caminho!

A tarde vai caindo, mansamente,
Mas eu nem dou por ela, enternecida,
Como quem vê num sonho a própria vida
A projectar-se ao longe, docemente!

Fico esquecida, assim, a recordar,
Matando esta saudade que trazia!
Como tudo é igual na fantasia
E na tranquila paz deste lugar!

Daqui avisto a minha terra, agora,
Como piedoso altar que se levanta,
Erguendo ao Céu essa Rainha Santa,
Que em milagres floriu, consoladora!

Que importa o tempo?... Eu vivo a fantasia!
Que importa a morte?... A vida é que domina!
Se até, na gota de água cristalina,
O mundo se renova, em cada dia…

Ai quem me dera aqui poder ficar,
Neste velho moinho, recordando!
Sem dar que pelo tempo ia passando,
Sem o tempo consigo me levar…


Maria de Santa Isabel Estremoz – Janeiro de 1945





13/06/2026

5 5ª Homenagem aos Santos Populares do BLOG do JUVENAL NUNES




Participação na 5ª Homenagem aos Santos Populares do BLOG "Palavras Aladas" do JUVENAL NUNES






Saltam as fogueiras, ergue-se o balão,
Com o manjerico e o cravo na mão,
No bailar da noite, que o povo festeja,
Viva Santo António, S. Pedro e S. João!


🎉 Vivam os Santos Populares!🎈






11/06/2026

4 Anti-gazetilha (No comboio descendente) - Fernando Pessoa



Pode ver outras incríveis criações digitais na minha galeria: Arte em AI



No comboio descendente
Vinha tudo à gargalhada,
Uns por verem rir os outros
E os outros sem ser por nada –
No comboio descendente
De Queluz à Cruz Quebrada...

No comboio descendente
Vinham todos à janela,
Uns calados para os outros
E os outros a dar-lhes trela –
No comboio descendente
Da Cruz Quebrada a Palmela...

No comboio descendente
Mas que grande reinação!
Uns dormindo, outros com sono,
E os outros nem sim nem não –
No comboio descendente
De Palmela a Portimão...


Fernando Pessoa, no jornal Sol (1926)





04/06/2026

5 As Árvores - Teixeira de Pascoaes


Spring landscape Scrapbook page with flowering trees and mountains - AI creation
Pode ver outras criações digitais na minha galeria: Arte em AI




Árvores maternais,
À luz do sol, em dias estivais,
O rústico mendigo,
Junto de vós, encontra abençoado abrigo…

Deita-se, a descansar
Do seu pesado e eterno caminhar.
Sob os ramos em flor,
Que dão à sua mágoa alívio, aroma e cor.

Porque a humana tristeza.
Perante a Natureza,
Embebe-se de azul, de cantos de ave
E se afasta de nós mais pálida e suave.

Ó árvores piedosas.
Pelas manhãs formosas.
Quando etéreo fulgor, que se anuncia.
Vossas lágrimas muda em risos de alegria!

Bendito o vosso corpo imaculado,
A arder, num lar sagrado.
Bendito o vosso fruto e flor, que vem dos céus.
Minhas irmãs em Deus.

Que simpatia imensa
Me prende à sua angélica presença,
Onde, em cristais, retine a voz do rouxinol
E, em tinta verde, coalha a luz do sol!

E que infinita mágoa
Eu sinto, quando o tempo, a escorrer água,
Como um fantasma esvoaça
E lhes despe a verdura, o mimo, a graça.

E têm vozes de choro,
Nas ramagens, que agita um zéfiro de agouro;
São suspiros de dor, ais tristes de abandono,
A elegia do outono.

E esse canto ideal
Satura-me de bruma espiritual;
Dilui-me num crepúsculo sem fim,
E vivo para tudo e morro para mim...


Teixeira de Pascoaes, Vida Etérea (1906)




28/05/2026

3 Quando as crianças brincam - Fernando Pessoa


Scrapbook page with children playing - AI creations
Pode ver outras incríveis criações digitais na minha galeria: Arte em AI



Quando as crianças brincam
E eu as oiço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar.

E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.

Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no coração.


Fernando Pessoa




21/05/2026

7 Volver às rimas suaves - Reinaldo Ferreira


Pode ver outras incríveis criações digitais na minha galeria: Arte em AI




Volver às rimas suaves,
Aos metros embaladores,
Cantar o canto das aves,
A aurora, a brisa e as flores...

Vibrar na deposta lira
Dos trovadores sepulcrais
Delidas queixas d'Elvira,
Zelos de bardo, fatais...

Para que nessa ficção,
De outras apenas diferente,
Ao fogo do coração
Arda a razão descontente.


Reinaldo Ferreira, (Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira)
In Poemas, 2.ª edição.




Topo