11/06/2026

Anti-gazetilha (No comboio descendente) - Fernando Pessoa






No comboio descendente
Vinha tudo à gargalhada,
Uns por verem rir os outros
E os outros sem ser por nada –
No comboio descendente
De Queluz à Cruz Quebrada...

No comboio descendente
Vinham todos à janela,
Uns calados para os outros
E os outros a dar-lhes trela –
No comboio descendente
Da Cruz Quebrada a Palmela...

No comboio descendente
Mas que grande reinação!
Uns dormindo, outros com sono,
E os outros nem sim nem não –
No comboio descendente
De Palmela a Portimão...


Fernando Pessoa, no jornal Sol (1926)





04/06/2026

As Árvores - Teixeira de Pascoaes





Árvores maternais,
À luz do sol, em dias estivais,
O rústico mendigo,
Junto de vós, encontra abençoado abrigo…

Deita-se, a descansar
Do seu pesado e eterno caminhar.
Sob os ramos em flor,
Que dão à sua mágoa alívio, aroma e cor.

Porque a humana tristeza.
Perante a Natureza,
Embebe-se de azul, de cantos de ave
E se afasta de nós mais pálida e suave.

Ó árvores piedosas.
Pelas manhãs formosas.
Quando etéreo fulgor, que se anuncia.
Vossas lágrimas muda em risos de alegria!

Bendito o vosso corpo imaculado,
A arder, num lar sagrado.
Bendito o vosso fruto e flor, que vem dos céus.
Minhas irmãs em Deus.

Que simpatia imensa
Me prende à sua angélica presença,
Onde, em cristais, retine a voz do rouxinol
E, em tinta verde, coalha a luz do sol!

E que infinita mágoa
Eu sinto, quando o tempo, a escorrer água,
Como um fantasma esvoaça
E lhes despe a verdura, o mimo, a graça.

E têm vozes de choro,
Nas ramagens, que agita um zéfiro de agouro;
São suspiros de dor, ais tristes de abandono,
A elegia do outono.

E esse canto ideal
Satura-me de bruma espiritual;
Dilui-me num crepúsculo sem fim,
E vivo para tudo e morro para mim...


Teixeira de Pascoaes, Vida Etérea (1906)




28/05/2026

Quando as crianças brincam - Fernando Pessoa





Quando as crianças brincam
E eu as oiço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar.

E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.

Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no coração.


Fernando Pessoa




21/05/2026

Volver às rimas suaves - Reinaldo Ferreira


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Volver às rimas suaves,
Aos metros embaladores,
Cantar o canto das aves,
A aurora, a brisa e as flores...

Vibrar na deposta lira
Dos trovadores sepulcrais
Delidas queixas d'Elvira,
Zelos de bardo, fatais...

Para que nessa ficção,
De outras apenas diferente,
Ao fogo do coração
Arda a razão descontente.


Reinaldo Ferreira, (Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira)
In Poemas, 2.ª edição.




14/05/2026

Apetece-me dançar - José Gomes Ferreira


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Apetece-me dançar
ao som do luar
- esse violino
que os outros não ouvem...

Ouviu-o Mozart...
Ouviu-o Beethoven...

Mas, hoje sou eu
que o ouço no céu
e danço na terra
com pés de cetim,
lá fora na rua...

Sou eu, pelo Ar...
Sou eu, o luar...
(...que arranquei de mim
e atirei para a lua.)


José Gomes Ferreira,
"Poesia II", 1962




07/05/2026

Outra Margem - Maria Rosa Colaço





E com um búzio nos olhos claros
Vinham do cais, da outra margem
Vinham do campo e da cidade
Qual a canção? Qual a viagem?

Vinham p’rá escola. Que desejavam?
De face suja, iluminada?
Traziam sonhos e pesadelos.
Eram a noite e a madrugada.

Vinham sozinhos com o seu destino.
Ali chegavam. Ali estavam.
Eram já velhos? Eram meninos?
Vinham p’rá escola. O que esperavam?

Vinham de longe. Vinham sozinhos.
Lá da planície. Lá da cidade.
Das casas pobres. Dos bairros tristes.
Vinham p’rá escola: a novidade.

E com uma estrela na mão direita
E os olhos grandes e voz macia
Ali chegaram para aprender
O sonho a vida a poesia.


Maria Rosa Colaço



03/05/2026

Mãe – Antero de Quental


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Mãe - que adormente este viver dorido,
E me vele esta noite de tal frio,
E com as mãos piedosas até o fio
Do meu pobre existir, meio partido...

Que me leve consigo, adormecido,
Ao passar pelo sítio mais sombrio...
Me banhe e lave a alma lá no rio
Da clara luz do seu olhar querido...

Eu dava o meu orgulho de homem – dava
Minha estéril ciência, sem receio,
E em débil criancinha me tornava,

Descuidada, feliz, dócil também,
Se eu pudesse dormir sobre o teu seio,
Se tu fosses, querida, a minha mãe!


Antero de Quental in "Sonetos"





27/04/2026

A Música - Charles Baudelaire






A música p'ra mim tem seduções de oceano!
Quantas vezes procuro navegar,
Sobre um dorso brumoso, a vela a todo o pano,
Minha pálida estrela a demandar!

O peito saliente, os pulmões distendidos
Como o rijo velame d'um navio,
Intento desvendar os reinos escondidos
Sob o manto da noite escuro e frio;

Sinto vibrar em mim todas as comoções
D'um navio que sulca o vasto mar;
Chuvas temporais, ciclones, convulsões

Conseguem a minh'alma acalentar.
— Mas quando reina a paz, quando a bonança impera,
Que desespero horrível me exaspera!


Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"
Tradução de Delfim Guimarães



22/04/2026

O cântico da terra - Cora Coralina


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Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.

Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranquila ao teu esforço.
Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.

Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.

A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua casa.

E um dia bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranquilo dormirás.

Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho,
do gado e da tulha.
Fartura teremos
e donos de sítio
felizes seremos.


Cora Coralina







17/04/2026

O caçador de borboletas - Álvaro Magalhães


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Sorridente, ao nascer do dia,
ele sai de casa com a sua rede.
Vai caçar borboletas, mas fica preso
à frescura do rio que lhe mata a sede
ou ao encanto das flores do prado.
Vê tanta beleza à sua volta
que esquece a rede em qualquer lado
e antes de caçar já foi caçado.

À noite, regressa a casa cansado
e estranhamente feliz
porque a sua caixa está vazia,
mas diz sempre, suspirando:
Que grande caçada e que belo dia!

Antes de entrar, limpa as botas
num tapete de compridos pêlos
e sacode, distraído,
as muitas borboletas de mil cores
que lhe pousaram nos ombros, nos cabelos.


Álvaro Magalhães,
in "O reino perdido", 2000




09/04/2026

Palavras - Olavo Bilac





As palavras do amor expiram como os versos,
Com que adoço a amargura e embalo o pensamento:
Vagos clarões, vapor de perfumes dispersos,
Vidas que não têm vida, existências que invento;

Esplendor cedo morto, ânsia breve, universos
De pó, que um sopro espalha ao torvelim do vento,
Raios de sol, no oceano entre as águas imersos,
- As palavras da fé vivem num só momento...

Mas as palavras más, as do ódio e do despeito,
O "não!" que desengana, o "nunca!" que alucina,
E as do aleive, em balões, e as da mofa, em risadas,

Abrasam-nos o ouvido e entram-nos pelo peito:
Ficam no coração, numa inércia assassina,
Imóveis e imortais, como pedras geladas.


Olavo Bilac
In Literatura Comentada



05/04/2026

Conselho - Maria de Santa Isabel


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No meu passado há sol: há claridade,
Que à sombra do futuro resplandece,
Quanto mais o caminho me escurece,
No presente, que é feito de saudade.

Encontro ainda tanta suavidade
Ao relembrar! Ás vezes, me acontece
Sentir o coração que me envelhece,
A reflorir de novo em mocidade!

Sempre é doce o passado recordar:
- Aprende a envelhecer tranquilamente,
Colhe da vida o que ela te quer dar…

Envelhecer assim não custa nada:
É como quem procura, no poente,
A estrela que brilhou na madrugada…


Maria de Santa Isabel




02/04/2026

A Árvore - Geir Campos




Ó árvore, quantos séculos levaste
a aprender a lição que hoje me dizes:
o equilíbrio, das flores às raízes,
sugerindo harmonia onde há contraste?

Como consegues evitar que uma haste
e outra se batam, pondo cicatrizes
inúteis sobre os membros infelizes?
Quando as folhas e os frutos comungaste?

Quantos séculos, árvore, de estudos
e experiências — que o vigor consomem
entre vigílias e cismares mudos —

demoraste aprendendo o teu exemplo,
no sossego da selva armada em templo?
Dize: e não há esperança para o Homem?


Geir Campos
Publicado no livro Rosa dos rumos (1950)



28/03/2026

Uma saudade a mais - Bernardina Vilar




Saudade a gente sente a qualquer hora:
Do bem maior que se nos vai deixando.
Saudade de um amor que foi embora,
De alguém que parte a nos deixar chorando.

Das venturas que não se tem agora;
Da flor pendida o prado perfumando
Da voz da fonte que aos soluços chora,
Da luz da lua a terra prateando.

Da igreja iluminada onde em criança
Rezamos com inocência e confiança
Preces a Deus com fé tão incontida!

Mas há sempre um lugar em nós guardado
Para abrigar no coração magoado
Uma saudade a mais em nossa vida.


Bernardina Vilar



23/03/2026

Poemas incertos - Maria de Santa Isabel




Os poemas incertos
em tempos perdidos
foram descobertos
pelos meus sentidos!
Abriram as asas,
levaram o sonho
sobre ideias rasas
que ainda suponho
vestir de poesia:
Desencontros de Alma
que, no dia a dia,
benze a verde palma
da Melancolia!


Maria de Santa Isabel



19/03/2026

Fim de Inverno - Hermann Hesse


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Na verde encosta coberta de asas
já repica um azul de violetas.
Somente ao longo da floresta escura
demora a neve em línguas dentilhadas,
mas gota a gota vai-se desfazendo
atraída pela terra.
No pálido céu alto pastam alvos
rebanhos de nuvens. Um pintassilgo
em amoroso canto se desfaz:
-Homens, amai-vos e cantai em paz!



Hermann Hesse





14/03/2026

Alma Perdida - Florbela Espanca




Toda esta noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol alma da gente,
Tu és, talvez, alguém que se finou!

Tu és, talvez, um sonho que passou,
Que se fundiu na Dor, suavemente...
Talvez sejas a alma, a alma doente
D'alguém que quis amar e nunca amou!

Toda a noite choraste... e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!

Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh'alma
Que chorasse perdida em tua voz!...


Florbela Espanca




10/03/2026

Fogueira - Geir Campos





Os gnomos do bosque desabotoam
as toscas pelerines de cortiça
forradas com cetim púrpura e ouro:
o mais sanguíneo deles inaugura
um inferno menor, e todos dançam,
enquanto as labaredas tremem como
mãos de noivas sem tálamo, acenando
para o vento cantor que as chora ausentes
— e também chora, nas árvores altas,
a mágoa obscura de não serem flautas.


Geir Campos




07/03/2026

As cores na nossa vida





A minha participação na iniciativa da amiga Rosélia no seu blogue Espiritual-Idade, sendo o tema: "A cor do meu eu real ... "




As cores fazem parte da nossa vida de forma tão natural que muitas vezes nem percebemos a sua influência. No entanto, elas estão presentes em tudo o que vemos e sentimo-las de maneiras diferentes. Cada cor pode despertar emoções, memórias e até influenciar o nosso estado de espírito. Por exemplo, para mim o azul costuma transmitir-me calma e tranquilidade, adoro observar o céu e o mar; o vermelho dá-me energia e gosto de usar essa cor quando vou passear, e o verde lembra-me a natureza e por isso traz-me uma sensação de equilíbrio e bem estar. E é claro, adoro todas as cores das flores, pois elas simbolizam alegria, vitalidade e a capacidade que a vida tem de florescer.

No nosso dia a dia, as cores ajudam-nos a comunicar sem palavras. Estão na arte, na roupa que escolhemos vestir, na decoração dos espaços onde vivemos ou trabalhamos. Muitas vezes escolhemos uma cor porque nos faz sentir melhor, mais confiantes ou mais relaxados. 

Assim, as cores não são apenas um elemento visual, elas fazem parte da forma como percebemos o mundo e como expressamos emoções. Em momentos de alegria  gosto de cores vibrantes e quando a dor aperta o meu coração, de cores mais sóbrias e sombrias. De certa forma, todas as cores dão mais vida à vida.





06/03/2026

Destino de Poeta - Octavio Paz





Palavras? Sim, de ar,
e no ar perdidas.
Deixa-me perder entre palavras,
deixa-me ser o ar nuns lábios,
um sopro vagabundo sem contornos
que o ar desvanece.

Também a luz em si mesma se perde.


Octavio Paz, in "Liberdade sob Palavra"




27/02/2026

Para Além do Quotidiano - Anna Carlini


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...E se você, meu pensamento, ...
Deixasse-me ir, me deixasse partir...
Par além das serenas nuvens,
Para além das coisas que os olhos vêem...
Para além do que os olhos enxergam, mas não querem...

Se você me deixasse sonhar, com todas
as coisas que gostaria de fazer e não tive tempo
Se você me deixasse livre para voar...
Em pensamentos luminosos, nos quais
A natureza reza seu canto diário.

Se eu tivesse tempo para ser perdoada...
E para perdoar...

Se eu pudesse ver transformar em realidade
todos meus coloridos e alheios sonhos
eu te juro, que estaria muito feliz,
E te seguiria sem perguntar
-De que é feita essa vida vã...


Anna Carlini (Pseudonimo)




23/02/2026

Um Poema que li outrora - Tasso da Silveira


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A madrugada, fresca e linda,
rompendo as trevas, encontrou
a Natureza adormecida ainda.

Súbito, uma ave, num pipilo
límpido e claro, despertou
a árvore enorme que lhe dera asilo...

E a árvore, comovida,
transmitiu à floresta secular
o doce frêmito de vida.

E floresta levou-o ao céu distante,
e o céu mandou-o ao mar...

E, assim, no deslumbramento desse instante,
toda a Terra, a florir, pôs-se a cantar!...


Tasso da Silveira
in Poemas




18/02/2026

Significado - Helena Kolody





No poema
e nas nuvens,
cada qual descobre
o que deseja ver.


Helena Kolody,
in Poesia Mínima




13/02/2026

Antes de amar-te nada era meu - Pablo Neruda





Antes de amar-te, amor, nada era meu
Vacilei pelas ruas e as coisas:
Nada contava nem tinha nome:
O mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
Túneis habitados pela lua,
Hangares cruéis que se despediam,
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
Caído, abandonado e decaído,
Tudo era inalienavelmente alheio,
Tudo era dos outros e de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas encheram o outono.


Pablo Neruda
Cem sonetos de amor.




06/02/2026

Silêncio - Maria de Santa Isabel




O silêncio da noite ergueu-se, agora,
Como fantasma que surgiu da bruma:
Silêncio enorme que se esfuma...
A vida é outra, agora;
A noite a idealiza...
A noite elege a calma Poesia,
Como um gesto de Deus, acaricia...
Tudo se abranda e purifica...
Minha alma é toda branca:
Sobre o negro da noite, ela aparece
Como gema de luz,
Que, em estojo de sonho, resplandece...


Maria de Santa Isabel



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