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28/03/2026

5 Uma saudade a mais - Bernardina Vilar




Saudade a gente sente a qualquer hora:
Do bem maior que se nos vai deixando.
Saudade de um amor que foi embora,
De alguém que parte a nos deixar chorando.

Das venturas que não se tem agora;
Da flor pendida o prado perfumando
Da voz da fonte que aos soluços chora,
Da luz da lua a terra prateando.

Da igreja iluminada onde em criança
Rezamos com inocência e confiança
Preces a Deus com fé tão incontida!

Mas há sempre um lugar em nós guardado
Para abrigar no coração magoado
Uma saudade a mais em nossa vida.


Bernardina Vilar



18/10/2025

6 A Voz da Saudade - Bernardina Vilar




Se cai a noite plácida, serena,
Tão branca de luar — doce magia...
A carícia da brisa torna a cena,
Num requinte envolvente de poesia.

O azul do céu de uma beleza extrema
Povoado de estrelas irradia,
E qual o encantamento de um poema
Faz palpitar sutil melancolia.

No Coração da mata um mocho pia
Rompendo a solidão num tom dolente,
Como um canto de amarga soledade.

E o coração da gente silencia
Porque mais alto que sua voz ardente
Fala a voz merencória da saudade.


Bernardina Vilar



19/04/2025

5 Saudade - Bernardina Vilar




Saudade é a imagem das recordações...
De luz acesa, crepitante chama
Que aquece a alma e gera evocações
E sem querer o desengano engana.

Saudade é um verso feito de emoções...
Acre perfume que a doçura emana
Torpor que entrando em nossos corações
Quanto mais embriaga, mais inflama...

Doce abandono... Ausência merencória...
De um passado distante a viva história
Que em nós conserva uma lembrança pura.

Saudade é o silvo agudo de um lamento
Que escutamos no perpassar do tempo
Como sendo delícia e amargura.


Bernardina Vilar




15/03/2025

8 Rotina - Bernardina Vilar




A vida é sempre a mesma. Uma rotina.
Há flores despontando, outras morrendo
Há pássaros cantando entre a campina
E há ninho vazio adormecendo.

De luar, há brancura em luz divina,
E noite escura em trevas se envolvendo;
Rio cantarolando. Frio, neblina,
E terra ardendo em brasa se estorcendo.

Há sorrisos, cantares, dor e pranto
Mal divididos. A uns fica a lembrança...
Outros vivem feliz realidade.

Assim decorre a vida. E por encanto
Em cada amanhecer há uma esperança
E em cada pôr-do-sol uma saudade.


Bernardina Vilar
In ‘Bom dia, Saudade!’ (1995)



06/02/2025

6 Poema Razões de Bernardina Vilar





Desde o princípio em que foi feito o mundo
Uma sentença existe, e que não muda:
Persiste o arraigado mais profundo
Que o amor é cego e que a saudade é muda.

Passam-se os tempos e evolui a vida.
Há inovações e toda lei se estuda;
Ninguém remove a instigação antiga
Que o amor é cego e que a saudade é muda.

...Talvez se ame a quem não deva amarmos...
E neste item com rigor me apego,
Vendo a razão por que o amor é cego.

E se sofrermos por silenciarmos
Do abandono a dor sobeja e aguda,
Eis a razão por que a saudade é muda.


Bernardina Vilar
em 'Meus Versos'





05/01/2025

8 Prece - Bernardina Vilar





De Deus eu quero a luz que me ilumine,
Do ser humano um pouco de bondade;
Do mal que fiz, perdão que me redime
E da ilusão a grata realidade.

Do coração eu quero o amor que imprime
N’alma o fulgor da justa caridade;
Do sofrimento a lágrima que exprime
O bálsamo da dor, da acerbidade.

Da inocência a pureza que irradia,
Do pássaro cantor, da voz o encanto
E das campinas o odor inigualável.

Dos felizes, um pouco de alegria...
Dos que sofrem o alívio de seu pranto;
Da humildade e da paz o gosto afável.


Bernardina Vilar
In ‘Bom dia, Saudade!’ (1995)



17/11/2024

7 Auroras e Crepúsculos - Bernardina Vilar





Todo dia, na fimbria do horizonte
Surge a aurora num sonho embevecido;
Abre-se a flor que expande junto à fonte
Um perfume de amor apetecido.

Mas se o galho tristonho pende a fronte
Acobertando o ninho adormecido
No véu da noite, aconchegando o monte
Chega o crepúsculo em sombras envolvido.

Assim é a vida: flor desabrochada...
Imagem da esperança despertada
Da aurora à luz, de nívea claridade.

E como o berço onde adormece o dia,
No momento de paz da “Ave Maria”.
Esta vida é crepúsculo. É Saudade.


Bernardina Vilar




23/10/2024

4 Lágrimas Perdidas - Bernardina Vilar




Não consigo saber se alguém me ama,
Se acaso alguém merece este meu pranto;
Por mim não sei também se alguém derrama
Uma lagrima de amor que vale tanto!

E quanto mais o meu sofrer se inflama
Mais eu sinto o sabor do desencanto;
Quanto mais choro e a dor de mim se emana.
Mais me envolvo num doloroso encanto.

Chorar? Nem sei por quem! Só sei que choro!
E peço a Deus e a soluçar imploro
Que me diga se devo assim chorar...

E as minhas pobres lágrimas perdidas
Vão rolando talvez despercebidas
Porque afinal ninguém me sabe amar!


Bernardina Vilar
In ‘Bom dia, Saudade’ (1995)



12/09/2024

4 O Tempo - Bernardina Vilar




Indomável, invencível, arrogante
Como um rio a correr vertiginoso
Não te condóis nem mesmo por instante
Aos clamores de um coração choroso.

Passageiro do mundo, incessante,
Num desafio bruto, desdenhoso,
Vais rasgando num gesto delirante
As entranhas da vida, impetuoso.

Conduzindo aos abismos do passado
Tudo quanto te surge no caminho,
Ó Tempo, não conheces a piedade!

Nada te faz parar. No triste fado
De não retroceder, seguir sozinho,
Só quem te faz deter é a Saudade.


Bernardina Vilar



14/07/2024

5 O Pôr do Sol - Bernardina Vilar





Descamba o sol no ocaso além do monte...
O dia moribundo se despede!
Entre os rochedos rumoreja a fonte
E o silêncio ao redor, saudades mede.

A escuridão já paira no horizonte
A tarde, pra dormir, tristonha pede...
E sobre as nuvens, reclinando a fronte
De que o dia partiu não se apercebe.

No campanário o bimbalhar de um sino
Tange dolente ao perpassar do vento
Doce acorde de paz, tranquilidade...

Meu coração se sente pequenino
Para conter num canto de lamento
O infinito sem par de uma saudade!


Bernardina Vilar



23/04/2024

5 Poema Como a Primavera - Bernardina Vilar





Se nasce a flor nos prados verdejantes
Ornamentando as orlas do caminho,
Voltam as andorinhas voejantes
Procurando os beirais do antigo ninho.

Adejam em semi-cÍrculos, doidejantes
Buscando o aconchego de um carinho ...
E com as asas ruflando, estonteantes
Chegam se agasalhando de mansinho.

A quem já não mais crê volta a esperança!
Vem a ilusão e os sonhos, a quimera...
Que vão e voltam no passar dos anos...

E como não me foges da lembrança
Quero que voltes como a primavera
Pra florescer meus tristes desenganos.


Bernardina Vilar
In ‘Bom dia, Saudade!’ (1995)




30/01/2024

3 Noite - Bernardina Vilar




Esvai-se a luz do sol lá no infinito...
A terra inteira cobra-se de luto
Mas as estrelas num piscar bendito
Vão fazendo o clarão do seu reduto.

Por entre as sombras, pressuroso, aflito
Joga-se o rio no penhasco abrupto
Da ave noturna o estridente grito
Corta o silêncio a estrondar de súbito.

Depois a terra dorme. E de mansinho
A lua surge. E pelo seu caminho
Vai desfazendo o crepe dos negrumes.

E a. serra, de luar acobertada,
De pouco em pouco vai ficar bordada
Com um turbilhão de luz de vagalumes.


Bernardina Vilar



17/10/2023

4 Saudade - Bernardina Vilar





Saudade é o cantar apaixonado
De um sabiá em tarde branda e linda;
É o espelho indelével do passado
Com a imagem de alguém que se ama ainda.

Saudade é um riso triste, amargurado,
Disfarçando uma dor cruel, infinda...
Bater de um coração descompassado
Na avidez de esperar provável vinda.

É a noite mal dormida, o olhar sofrido;
Dentro de nós o peito dolorido
Prestes a explodir de ansiedade...

É a lágrima discreta, comovente,
Rolando pela face, lentamente
Acolhendo terrível realidade.


Bernardina Vilar



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