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06/08/2022

5 Poema





Noite. Fundura. A treva
E mais doce talvez...
E uma ânsia de nudez
Sacode os filhos de Eva.

Não a nudez apenas
Dos corpos sofredores
Mas a das almas plenas
De indecisos amores.

A voz do sangue grita
E a das almas responde!
Labareda infinita
Que nas sombras se esconde.

Mas quase sem ruído,
Na carne ao abandono
O hálito do sono
Desce como um vestido...


Pedro Homem de Melo




26/03/2022

6 Poema - O Vento - Pedro Homem de Melo




O vento que dança
além sobre o mar
O vento é criança
e põe-se a brincar.

Ondas, uma a uma
atrás dele vão.
Faz da branca espuma
bolas de sabão.

Depois sobre a areia
tem novos brinquedos:
finge que incendeia
os mudos rochedos.

E sobe aos outeiros
e desce à planura.
Faz dos castanheiros
leque de verdura.

Vai mais longe o vento!
_Desprende, alivia
com seu movimento
cada pedra fria...


Pedro Homem de Melo



24/01/2018

0 Solidão - Poema de Pedro Homem de Mello





Ó solidão! À noite, quando, estranho,
Vagueio sem destino, pelas ruas,
O mar todo é de pedra... E continuas.
Todo o vento é poeira... E continuas.
A Lua, fria, pesa... E continuas.
Uma hora passa e outra... E continuas.
Nas minhas mãos vazias continuas,
No meu sexo indomável continuas,
Na minha branca insónia continuas,
Paro como quem foge. E continuas.
Chamo por toda a gente. E continuas.
Ninguém me ouve. Ninguém! E continuas.
Invento um verso... E rasgo-o. E continuas.
Eterna, continuas... Mas sei por fim que sou do teu tamanho!


Pedro Homem de Mello



0 Os Poetas - Pedro Homem de Mello




Nunca os vistes
Sentados nos cafés que há na cidade,
Um livro aberto sobre a mesa e tristes,
Incógnitos, sem oiro e sem idade?

Com magros dedos, coroando a fronte,
Sugerem o nostálgico sentido
De quem rasgasse um pouco de horizonte
Proibido...

Fingem de reis da Terra e do Oceano
(E filhos são legítimos do vício!)
Tudo o que neles nos pareça humano
É fogo de artifício.

Por vezes, fecham-lhes as portas
— Ódio que a nada se resume —
Voltam, depois, a horas mortas,
Sem um queixume.

E mostram sempre novos laivos
De poesia em seu olhar...

Adolescentes! Afastai-vos
Quando algum deles vos fitar!


Pedro Homem de Mello, in "O Rapaz da Camisola Verde"



0 Fonte - Poema de Pedro Homem de Mello




Meu amor diz-me o teu nome
— Nome que desaprendi...
Diz-me apenas o teu nome.
Nada mais quero de ti.
Diz-me apenas se em teus olhos
Minhas lágrimas não vi,
Se era noite nos teus olhos,
Só por que passei por ti!
Depois, calaram-se os versos
— Versos que desaprendi...
E nasceram outros versos
Que me afastaram de ti.
Meu amor, diz-me o teu nome.
Alumia o meu ouvido.
Diz-me apenas o teu nome,
Antes que eu rasgue estes versos,
Como quem rasga um vestido!


Pedro Homem de Mello, in "Grande, Grande Era a Cidade..."




0 Cisne - Poema de Pedro Homem de Mello




Amei-te? Sim. Doidamente!
Amei-te com esse amor
Que traz vida e foi doente...

À beira de ti, as horas
Não eram horas: paravam.
E, longe de ti, o tempo
Era tempo, infelizmente...

Ai! esse amor que traz vida,
Cor, saúde... e foi doente!

Porém, voltavas e, então,
Os cardos davam camélias,
Os alecrins, açucenas,
As aves, brancos lilases,
E as ruas, todas morenas,
Eram tapetes de flores
Onde havia musgo, apenas...

E, enquanto subia a Lua,
Nas asas do vento brando,
O meu sangue ia passando
Da minha mão para a tua!

Por que te amei?
                           — Ninguém sabe
A causa daquele amor
Que traz vida e foi doente.

Talvez viesse da terra,
Quando a terra lembra a carne.
Talvez viesse da carne
Quando a carne lembra a alma!
Talvez viesse da noite
Quando a noite lembra o dia.

— Talvez viesse de mim.
E da minha poesia...


Pedro Homem de Mello, in "Adeus"



0 Canção Verde - Poema de Pedro Homem de Melo




A minha canção é verde
Sempre de verde a cantei!
De verde cantei ao povo
E fui de verde vestido
Cantar à mesa do Rei!

Porque foi verde o meu canto?
Porque foi verde?
                               -- Não sei...

Verde, verde, verde, verde,
Verde, verde, em vão cantei!
-- Lindo moço! disse o Povo.
-- Verde moço! disse El-rei.

Porque me chamaram verde?
Porque foi? Porquê?
                               -- Não sei...

Tive um amor -- Triste sina!
Amar é perder alguém...
Desde então ficou mais verde
Tudo em mim: a voz, o olhar,
Cada passo, cada beijo...
E o meu coração também!

Coração! porque és tão verde?
Porque és verde assim também?

Deu-me a vida, além do luto,
Amor à margem da lei...
Amigos são inimigos!
-- Paga-me!, gritaram todos.
Só eu de verde fiquei.

Porque fiquei eu de verde?
Porque foi isto?
                              -- Não sei...

A minha canção é verde
-- Canção à margem da lei...
Verde, ingénua, verde e moça,
Como a voz desta canção
Que, por meu mal vos cantei...

A minha canção é verde,
Verde, verde, verde, verde...
Mas... porque é verde?
                                -- Não sei...


Pedro Homem de Melo


1 Amizade - Poema de Pedro Homem de Mello






Amizade


Ser-se amigo é ser-se pai
( — Ou mais do que pai talvez...)
É pôr-se a boca onde cai
A nódoa que nos desfez.

É dar sem receber nada,
Consciente da prisão,
Onde os nossos passos vão
Em linha por nós traçada...

É saber que nos consome
A sede, e sentirmos bem
O Céu, por na Terra, alguém
Rir, cantar e não ter fome.

É aceitar a mentira
E achá-la formosa e humana
Só porque a gente respira
O ar de quem nos engana.


Pedro Homem de Mello, em "Miserere"



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