Eis a casa - poema de Cecília Meireles
Eis a casa
menos que ar
imponderável,
no entanto é branca de
camélia
e tem perfume de cal
Com seus corredores
O alpendre
As janelas uma a uma
Vê-se o mar. As montanhas. O
trem passando
O gasómetro
Vêm-se as árvores por cima
com suas flores
A casa imponderável
Mas de cimento madeira
tijolos ferro vidro
A pintura prateada das
grades cheira a óleo a fruta a luz
A água a pingar cheira a
musgo,
soa metálica, trémula
insetos pássaros líquidos
pequenas estrelas
clarins muito longe
Peitoris gastos de braços
antigos
Sombras de borboletas
Eu sei quem comprou a terra
quem pensou nos desenhos
quem carregou as telhas
Passam legiões de formigas
pelos patamares
Eu sei de quem era a casa
quem morou na casa
quem morreu
Eu sei quem não pôde viver
na casa
É uma casa
com seus andares
suas escadas
seus corredores
varandas
aposentos
alvenaria
muros
imponderável.
Uma casa qualquer.
Cruz que se carrega.
Imponderavelmente, para
sempre, às costas.