03/07/2020

9 Manhã





Fresca manhã da vida, recomeço
Doutros orvalhos onde o sol se molha.
Nova canção de amor e novo preço
Do ridente triunfo que nos olha.


Larga e límpida luz donde se vê
Tudo o que não dormiu e germinou;
Tudo o que até de noite luta e crê
Na força eterna que o semeou.


Um aceno de paz em cada flor;
Um convite de guerra em cada espinho;
E os louros do perfeito vencedor
À espera de quem passa no caminho.



Miguel Torga 
in ‘Libertação’


22/06/2020

8 Ao longe os Barcos de Flores - Camilo Pessanha




(A Ovídio de Alpoim)

Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila,
- Perdida voz que de entre as mais se exila,
- Festões de som dissimulando a hora

Na orgia, ao longe, que em clarões cintila
E os lábios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila.

E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta, detém. Só modulada trila
A flauta flébil... Quem há-de remi-la?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?

Só, incessante, um som de flauta chora...



Camilo Pessanha





14/06/2020

9 Rio - Poema de Jorge Guillén




Como vai serena a água!
Unifica silêncios.
À deriva, espadas
de cristal afiam, lenta
espera, seus gumes...
O mar precisa delas.
Porém, uma frescura errante
dispersa vozes apaixonadas
por todo o rio.
Elas pedem, juram, recitam.
Pulsação da correnteza!
Como bate! Delira!
Sob as águas singram
céus íntimos.
A corola do ar profundo
ilumina-se.
As vozes seguem ainda
mais apaixonadas. Vão ansiosas.
Eu queria, eu queria...
Todo o rio suspira.


Jorge Guillén





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