Paginas

27/02/2026

Para Além do Quotidiano - Anna Carlini





...E se você, meu pensamento, ...
Deixasse-me ir, me deixasse partir...
Par além das serenas nuvens,
Para além das coisas que os olhos vêem...
Para além do que os olhos enxergam, mas não querem...

Se você me deixasse sonhar, com todas
as coisas que gostaria de fazer e não tive tempo
Se você me deixasse livre para voar...
Em pensamentos luminosos, nos quais
A natureza reza seu canto diário.

Se eu tivesse tempo para ser perdoada...
E para perdoar...

Se eu pudesse ver transformar em realidade
todos meus coloridos e alheios sonhos
eu te juro, que estaria muito feliz,
E te seguiria sem perguntar
-De que é feita essa vida vã...


Anna Carlini (Pseudonimo)




23/02/2026

Um Poema que li outrora - Tasso da Silveira





A madrugada, fresca e linda,
rompendo as trevas, encontrou
a Natureza adormecida ainda.

Súbito, uma ave, num pipilo
límpido e claro, despertou
a árvore enorme que lhe dera asilo...

E a árvore, comovida,
transmitiu à floresta secular
o doce frêmito de vida.

E floresta levou-o ao céu distante,
e o céu mandou-o ao mar...

E, assim, no deslumbramento desse instante,
toda a Terra, a florir, pôs-se a cantar!...


Tasso da Silveira
in Poemas




18/02/2026

Significado - Helena Kolody





No poema
e nas nuvens,
cada qual descobre
o que deseja ver.


Helena Kolody,
in Poesia Mínima




13/02/2026

Antes de amar-te nada era meu - Pablo Neruda





Antes de amar-te, amor, nada era meu
Vacilei pelas ruas e as coisas:
Nada contava nem tinha nome:
O mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
Túneis habitados pela lua,
Hangares cruéis que se despediam,
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
Caído, abandonado e decaído,
Tudo era inalienavelmente alheio,
Tudo era dos outros e de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas encheram o outono.


Pablo Neruda
Cem sonetos de amor.




06/02/2026

Silêncio - Maria de Santa Isabel




O silêncio da noite ergueu-se, agora,
Como fantasma que surgiu da bruma:
Silêncio enorme que se esfuma...
A vida é outra, agora;
A noite a idealiza...
A noite elege a calma Poesia,
Como um gesto de Deus, acaricia...
Tudo se abranda e purifica...
Minha alma é toda branca:
Sobre o negro da noite, ela aparece
Como gema de luz,
Que, em estojo de sonho, resplandece...


Maria de Santa Isabel



02/02/2026

Arte poética - Vitorino Nemésio





A poesia do abstracto?
Talvez.
Mas um pouco de calor,
A exaltação de cada momento.
É melhor.
Quando sopra o vento
Há um corpo na lufada;
Quando o fogo alteou
A primeira fogueira,
Apagando-se fica alguma coisa queimada.
É melhor!
Uma ideia,
Só como sangue de problema;
No mais, não,
Não me interessa.
Uma ideia
Vale como promessa,
E prometer é arquear
A grande flecha.
O flanco das coisas só sangrando me comove,
E uma pergunta é dolorida
Quando abre brecha.
Abstracto!
O abstracto é sempre redução,
Secura.
Perde,
E diante de mim o mar que se levanta é verde:
Molha e amplia.
Por isso, não:
Nem o abstracto nem o concreto
são propriamente poesia.
Poesia é outra coisa.
Poesia e abstracto, não.


Vitorino Nemésio





Topo